terça-feira, outubro 07, 2008

POETAS DO RIO DE JANEIRO



TANUSSI CARDOSO

UM POETA NAS CIDADES

Neste momento, um poeta está sozinho nas ruas de Nova York.
Caminha nas calçadas de Nova Deli.
Passeia o cansaço pelos gelos nórdicos.
É triste nas esquinas do mundo.
É o cego e o seu realejo.
O enforcado, o carrasco, o viúvo, o noivo.
A voz do mundo e seus medos.
Os amantes e seus desejos.
Neste momento, um poeta anda pelas dunas de areais do Saara.
Venta nas folhas da Amazônia.
Chora pelos mares de Espanha.
É faca, corte, bala traiçoeira.
O Espirito do Tempo, os Templos, terços e tendas.
Um poeta sozinho nas ruas do mundo.
Olha as cidades e ouve seus gritos.
Olha a cidade e vê os seus circos.
Olha as cidades e tudo é igual: lodo, verde, temporal.
Olha as cidades e os girassóis se estilhaçam nos sóis amarelos.
Olha as cidades e o corpo é flechado nos vitrais dos mistérios.
Olha as cidades e as janelas abertas no fundo dos quintais.
Olha as cidades e toca e seus muros.
O muro e suas noites.
O muro e suas peles
Atrás do muro, o mar
Atrás da noite, nada
- A Barca da Morte espreita enganosa.
Sozinho nas curvas da vida,
As luas vão e vêm, banhando-o em luz.
Neste momento, um poeta olha as cidades
Tentando confortar poemas derramados.
Poemas de sinais trocados.
Poemas que se escrevem nos esgotos.
Entre ternuras, vinhos, auroras,
Línguas estranhas beliscam como corvo.
Neste momento, um poeta olha as cidades
E a poesia não expulsa ao demônios.
Que texto o orienta?
Como escrever o poema desses dias?
Mas escreve e escreve e escreve
Porque não pode evitar desastres.
Um poeta caminha solto pelas ruas do Brasil.
Sob as estrelas tenta desenhar humanidades.

DESTINO

Suicido-me varias vezes ao dia.
Cama e maca não são um mero anagrama
Mas um encontro de marcas.

CHRONOS

O agora é cisco
Riso de rio seco
O agora é um grito
(No eterno
O tempo se cria
Cicatriz e visgo)
O agora é risco
Malabarista no escuro
O agora não passa de um tiro

SETA

O sinal vermelhou parou o ônibus
Na hora exata em que o amor passou
O amor passa sempre no sinal vermelho

OCO

Tudo é solidão. Silêncio.
Tudo é mistério. Medo.
Mesmo em ebulição nascendo as palavras.
Tudo é angustia. Ausência.
Tudo.
Mesmo o poema
Principalmente o poema.

PERDIDA

Masturbando-se, ainda menina,
A mãe cortou-lhe os pulsos.
Tentou, em frente ao espelho,
Lamber seu próprio sexo,
Exercício constante e doloroso.
A mãe viu. Menina suja.
Construiu uma proteção de ferro
E cresceu sozinha. Olhos-de-janela.
Agora,
Aquele home a chupar-lhe os peitos
E a serrar-lhe o ferro e o sexo.
A mãe morta em pânico.

ÓVULO

Das sombras nasce o poema
Luz e nudez
: absurdo caracol

CHÃO DE ESTRELAS

Barracão de zinco
Três tiros no peito
Ele já estirado
Na vitrola, Silvio Caldas
Emocionado.

UM OUTRO OLHAR

O infinito?
O que o nosso olhar
Respira.
O que cabe
Na medida da águia.
O sangue cortado
Da medula.
O corpo transformado
Em asas.
(Mais nada).

DIALÉTICA

Quem desequilibra o trapezio:
A harmonia ou o fio?
Quem desequilibra a vida:
A gargalhada ou o medo?
Quem desequilibra o homem:
A vida ou o trapezista?

TANUSSI CARDOSO – O poeta, jornalista, critico literário, escritor, letrista e advogado carioca Tanussi Cardoso, é dos mais atuantes poetas do país, apresentando-se, sempre, em recitais de poesia e eventos literários, além de ser colaborador ativo de diversas publicações literárias espalhadas pelo país, e jurado de concursos literários. É autor dos livros de poemas: "Desintegração" (Ed. do Autor,1979/RJ), "Boca Maldita" (Ed. Trote, 1982/RJ), prefaciado por Leila Míccolis, e "Beco com Saídas" (Ed. Edicom, 1991/SP), prefaciado por Socorro Trindade, Prêmios UBE/RJ e UBE-Guararapes/GO. Em 2000, lançou "Viagem em Torno de", pela Ed. 7Letras/RJ. Os poemas selecionados são da obra “A medida do deserto e outros poemas revisitados” incluído na antologia “Rios”.

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TANUSSI CARDOSO
ENTREVISTA DE TANUSSI CARDOSO

segunda-feira, outubro 06, 2008

LITERATURA BRASILEIRA – POETAS DA BAHIA



CASTRO ALVES – O poeta baiano Antônio Frederico Castro Alves (1847-1871)
Em 1862, foi fazer os preparatórios de Direito no Recife. Não tardou a destacar-se, na capital pernambucana, como poeta empolgado pelas idéias liberais e abolicionistas da mocidade acadêmica do tempo.
Em 1863, começou a participar da campanha abolicionista, escrevendo em um jornal acadêmico seus primeiros versos em defesa da abolição da escravatura: "A Canção do Africano". Castro Alves participou ativamente das inquietações de espírito, da agitação poética e patriota e das lutas liberais que empolgavam sua geração.
Entrou para a Faculdade em 1864; Tobias Barreto foi seu colega de turma. Em 1867, deixou o Recife ao lado da atriz Eugênia Câmara, por quem se apaixonara, e, depois de fazer representar pela amante, em Salvador, o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas (ed. póstuma, Rio, 1875), que para ela escrevera especialmente, veio em sua companhia para o Sul. De passagem pelo Rio, visitou Machado de Assis e José de Alencar, que se impressionaram com o seu talento poético. Chegou a São Paulo em março de 1868 e matriculou-se no terceiro ano do curso jurídico. Granjeou logo celebridade entre os colegas de Academia, a cujo número pertenciam Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Salvador de Mendonça. Pouco depois, rompeu definitivamente com Eugênia Câmara, rompimento que o mergulhou numa crise de profunda melancolia. Para distrair-se, dedicou-se a caçadas nos arredores da cidade. numa delas, feriu acidentalmente o pé com um tiro de espingarda. O ferimento infeccionou, agravou-se uma enfermidade pulmonar latente e o poeta foi removido para o Rio, onde lhe amputaram o pé.
Em fins de 1869, regressou à Bahia para convalescer e tratar da edição de Espumas Flutuantes, o único de seus livros publicado em vida. O livro veio à luz em Salvador nos fins de 1870, meses antes de o poeta ali falecer vitimado pela tuberculose.
A vitalidade da obra de Castro Alves, último grande poeta do nosso Romantismo, é indicada, desde logo, pelos acidentes de sua fortuna crítica. Nesta, louvações de caráter puramente afetivo ou rasteiramente ideológico polarizam com empenhos de desmistificação de um rigor analítico que mal lhes esconde, amiúde, a parcialidade e as prevenções. Tal radicalização de posições críticas indica, por si só, o alto grau de representatividade de Castro Alves, cuja obra enfeixa, numa espécie de gran finale, as linhas-de-força essenciais de nossa poesia romântica. Não tendo sido, a bem dizer, um "inventor" - no sentido restritamente brasileiro em que o forma Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, ou mesmo Pedro Luís -, ele soube todavia transfigurar as influências que deles recebeu, de par com a decisiva influência de Vítor Hugo, numa dicção pessoal e inconfundível, afinada com o momento histórico que viveu e com as singularidades de seu temperamento de homem e de artista. Artista cuja fogosidade juvenil, responsável pelo calor humano de seus versos tanto quanto pelo verbalismo irrefreável que repetidamente os compromete, se fazia acompanhar de uma instintiva sabedoria artesanal, que lhe permitiu, em mais de um passo, alçar-se ao nível da grande poesia.
A vertente lírica do poeta, nas suas duas espécies principais, a amorosa e a naturista, está representada em Espumas Flutuante e, secundariamente, nos Hinos do Equador, publicados pela primeira vez na edição das Obras Completas de Castro Alves., organizadas por Afrânio Peixoto (Rio, 1921). Nesses livros, ao lado de traduções e paráfrases de Byron, Hugo, Lamartine, Murger, Musset, Espronceda e outros, figuram também composições de caráter épico-social como "O Livro e a América", "Ode ao Dous de Julho", "Pedro Ivo", "Pesadelo de Humaitá", "Deusa Incruenta", as quais, embora paradigmáticas do Condoreirismo do poeta, mostram-lhe, pelo abuso de antíteses e hipérboles levadas por vezes às raias do grotesco, a face mais perecível. Isso já não acontece nos poemas em que ele registrou, em clave autobiográfica, seus êxtases e desalentos amorosos: "Hebréia", "O Laço de Fita", "Os Três Amores", "Boa Noite", "Adormecida", bem como o ciclo inspirado por Eugênia Câmara, ao qual pertencem, entre outros, "O Gondoleiro do Amor", "Hino ao Sono", "O Tonel das Danaides", "É Tarde". Em tais poemas, aparado das demasias verbais, o verso se faz terso e sugestivo e as metáforas naturais, para expressarem a experiência amorosa em sua plenitude sentimental e carnal - plenitude que, entre os nossos românticos, Castro Alves. foi o único a ostentar. Destaquem-se ainda, na pauta lírica, os momentos introspectivos de dúvida e fatalismo em face da existência ("Mocidade e Morte", "Quando Eu Morrer", "Coup d'Étrier") e, sobretudo, os de exaltação perante os espectáculos da Natureza, que, ajudado por uma sensibilidade eminentemente plástica e visual, o poeta fixou em belos quadros paisagísticos, que antecipam certa linha formal do Parnasianismo ("Sub Tegmine Fagi", "Murmúrios da Tarde", "Aves de Arribação", A Cachoeira de Paulo Afonso). Foi, porém, na poesia abolicionista que, fecundado pela adesão a uma causa social e humanitária de candente atualidade, o talento oratório do poeta alcançou realizar-se superiormente. Define-se, então, aquele "melhor pragmatismo" que, em meio a severas restrições a outros aspectos da arte do Condor, Mário de Andrade soube nela reconhecer. Conquanto não tivesse sido o introdutor do tema do escravo na poesia brasileira - precederam-no nesse campo, entre outros, Gonçalves Dias, Trajano Galvão, Luís Gama e Varela -, coube a ele aprofundar as implicações humanas. Numa adequação admiravelmente funcional das virtualidades amplificatórias e dramatizantes de sua eloqüência condoreira com as necessidades históricas da luta abolicionista, redimiu ele o escravo da anodinia cotidiana para impô-lo, como figura romanticamente trágica, à atenção de uma coletividade insensibilizada, pelo hábito trissecular, para o que pudesse haver de desumano na escravidão. Tal promoção dramática do cativo ocorre nA Cachoeira de Paulo Afonso (Bahia, 1876), longo poema narrativo em que o amor de dois escravos, Lucas e Maria, é pintado com cores propositadamente trágicas, para acentuar as iniqüidades do regime servil, e nOs Escravos (Rio, 1883), coletânea na qual, além de "O Navio Negreiro" e "Vozes d'África", seus mais famosos poemas abolicionistas, reuniu Castro Alves composições esparsas na mesma linha temática, como "A Visão dos Mortos", "A Cruz da Estrada", "O Vidente", "O Bandido Negro", "Saudação a Palmares", que, pela justeza do tom e pelo frêmito revolucionário que os anima, mostram-no no melhor de sua arte vibrantemente humana e libertária. Por esta razão é considerado um dos maiores poetas brasileiros.

NAVIO NEGREIRO

I

'Stamos em pleno mar. Doudo no espaço
Brinca o luar - dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar. Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
- Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar. Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo - o mar em cima - o firmamento.
E no mar e no céu - a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra - é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar - doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
- Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês - marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês - predestinado -
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí. Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma - lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
Adeus, ó choça do monte,
Adeus, palmeiras da fonte!...
Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

VOZES D´ÁFRICA

Deus! ò Deus! onde estàs que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos cèus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estàs, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos harèns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...

Sempre a làurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

....................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo ás Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
'Abriga-me, Senhor!...'

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: 'Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . '

Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitàrio
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno cèu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monòtono, arquejante
Que desce de Efraim

.......................................

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurìvel
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu glàdio vingador?!
........................................

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
'Cão! ... serás meu esposo bem-amado...
— Serei tua Eloá. . . '

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se ás mais... irmã traidora
Qual de Josè os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

O POVO AO PODER

Quando nas praças s'eleva
Do Povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...

Que o gigante da calçada
De pé sobre a barrica
Desgrenhado, enorme, nu
Em Roma é catão ou Mário,

É Jesus sobre o Cálvario,
É Garibaldi ou Kosshut.

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!

Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua seu...
Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem...nest'hora poluta

Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deixai-nos soltar um grito
Que topando no infinito

Talvez desperte o Senhor.

A palavra! Vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu'infâmia! Ai, velha Roma,
Ai cidade de Vendoma,
Ai mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhes os pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".

Mas embalde... Que o direito
Não é pasto de punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! Não há muitos setembros,
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmão da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! Soberba populaça,
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

A EUGÊNIA CÂMARA

Ainda uma vez tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...

Após a noite, que passou sombria,
A estrela-d'alva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...

Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se lutaste um dia,
A tempestade se não rompe a estátua
Vê como o povo o teu sofrer pagou...

Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.

Ouves o aplauso deste povo imenso
Lava, que irrompe do pop'lar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.

O povo... o povo... é um juiz severo,
Maldiz as trevas, abençoa a luz...
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
- P'ra ti altares, não do poste a cruz.

Que queres? Ouve! - são mil palmas férvidas,
Olha! - é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! - são flores, que tu tens às plantas,
Toca na fronte - coroada estás.

Descansa pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre a terra e mar,
Poisa nas nuvens p'ra arrogante em breve
Distante... longe... mais além de voar.

FONTE:
ALVES, Castro. Poesias completas de Castro Alves: Espumas flutuantes – Hinos do Equadro. Rio de Janeiro: Spiker, s/d.
______. Poesias completas de Castro Alves: A cachoeira de Paulo Afonso – Os escravos – Traduções e inéditos. Rio de Janeiro: Spiker, s/d.
BANDEIRA, Manuel. Noções de história das literaturas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
BRASIL, Assis. Dicionário pratico de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
______. Vocabulário técnico de literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. São Paulo: FFLCH/USP, 1999.
______ Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp, 1975.
_______. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.
CANDIDO, Antonio: CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira, vol. 1. São Paulo, Difel, 1968.
CARPEAUX, Otto Maria. Historia da literatura ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1980.
_________. Pequena bibliografia critica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguet, 1955.
COSTA, Luiz Carlos. Gêneros Literários: Um debate permanente. In: Revista Letras & Letras, Uberlândia, 1987.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
CULLER, Jonathan. Teoria Literária - Uma introdução. São Paulo: Beca Produções Culturais Ltda., 1999.
CURY, Mana Zilda e WALTY, Ivete. Textos sobre textos. Belo Horizonte: Dimensão, 1999.
D’ONOFRIO, Salvatore. Literatura Ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990.
FERREIRA, Pinto. Historia da literatura brasileira. Caruaru: Fadica, 1981.
HOLANDA, Sergio Buarque (Org). Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979,
LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro:Agir, 1956.
LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Forense-Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wlson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
MAIA, João Domingues. Literatura: textos e técnicas. São Paulo: Ática, 1996.
MOISÉS, Massaud, A Literatura Brasileira Através dos Textos. São Paulo: Cultrix, 2000.
______. A Criação Literária: Prosa. São Paulo: Cultrix, 1968.
NICOLA, José de. Literatura Brasileira das origens aos Nossos Dias:São Paulo: Scipione,1994.
ROMERO, Silvio. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympioo/INL, 1980.
SOARES, Angélica M. Santos. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 1889.
SODRÉ, Nelson Werneck. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasiléia, 1976.

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sexta-feira, outubro 03, 2008

PRIMEIRA REUNIÃO



A INTROMISSÃO DO VERBO

Luiz Alberto Machado

O verbo, o Aleph.
Antes, o verbo era fruto.
Depois, fato.
E virou semente, feto, seguiu nada-tudo.
E vibrou. Reverberou. Frutificou.
Como um deus, profanou.
E deificou profanando.
E profanou deificando.
Uno, ser/não-ser corporificou na mão do pedreiro.
Era mágica.
A essência: vida.

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quinta-feira, outubro 02, 2008

POETAS DO RIO DE JANEIRO



RICARDO ALFAYA

PORTA-ALMA

Não cabia na cômoda
Nem mesmo no cômodo
Não cabia em si
Não tinha o menor cabimento
Móvel de alças balançantes
Contendo objeto invisível
Num buraco vazio
No peito
Dentro

MEDITAÇÃO

A mão insana tateia
Procura um objeto
A mente não concebe
O espírito puro
No ocaso da tarde
A tentação serpenteia
Tudo que nos rodeia
É vermelha maçã

NU E CRU

Súbito
Cai a chuva fina
Rei Lear estou nu
No meio da tarde
Quem me disse que a liberdade
Se acha na total nudez?
Sinto frio medo arrepio surpresa
E alguma vergonha
Quero roupas
Roupas agora
Que me agasalhem
Que me permitam andar
Sóbrias coloridas brilhantes
Bizarras que sejam
Porem roupas
Panos turbantes capas
Chapéus sandálias echarpes
Camisas com seus botões
Não importa se de linho
Seda crepe algodão
Preciso de roupas
Fantasias que cubram meu corpo
Para me descobrir.

TEMPESTADE CEREBRAL

Este é apenas um poema
Escrito não consumível
Conquanto lógico-linear mastigável
De teor circunspecto circunscrito
Este é um poema de circo
A rígido rigor adstrito
Palavra podada
Enxuta exaurida exumada
Medida calculada
Nota in extremis
Proscrito post scriptum
Um objeto na enxurrada.

DAS COISAS E DOS SERES

Um punhado de tinta vira um quadro
Do barro se ergue um homem
Enquanto outro cai e vira fera
Num susto uma criança cresce
Termina busto de bronze no meio da praça
Um ventilador se modifica em vento
E se não abuso do invento
Palavras de nada viram poema de ser
A água endurecida se faz gelo
Se amolece logo se evapora e vai embora
Um bom relógio dá um duro patrão
Uma estátua idolatrada muda em santo
O santo se transforma em marca de sapólio
Ou quem sabe até seu nome batize
Uma nave para Marte
Da Terra tudo parte.

INTERNOTA

Ao infinito mar
Devolvo o punhado de areia
Mão cheia
Sob a lua que espreita
Na água deito as letras
Que
Poetam
Sobre paginas flutuantes.

VIGÍLIA

Quando a vida
Tomba
Tomba
Tomba
Pietá
Em meus braços
De
Caída
Plena
Em pleno
Cansaço
Oh
Não
Adormeço
(a morte
Espreita
Meus passos).

DERRADEIRO PÓS

Época de ouro
De instantâneo ouro em pó
De competição e mesquinharia
Teu caso é insolúvel
Teu ocaso inevitável
Junta todas as quinquilharias
Põe no museu tua mobília
Olha para os teus
Pede perdão
E dize adeus.

PESCADO NAS ÁGUAS DE RIO

A vida não é exatamente qual rio
Embora vá prosseguindo em frente
Nem sempre segue reta para o mar
Na maioria das vezes vagueia tonta
Tão sem remo sem rumo e sem rota
Se desconhece leme na terra à vista
Que dê remédio à tontura e a aprume
Que arrume a seta do vago navegar
Para quem o mal deplora, o consolo:
Não existe nau que para sempre dure.

SUEJITO A OBJETOS

Objetos em toda parte
Cercam os sujeitos
Pode ser um trapo um troco um troço
Ou de tudo isso o oposto: o máximo colosso
Um objeto é um parafuso
A maquina
A engrenagem toda
O sistema inteiro
Oculto no sujeito
Um objeto por certo
É meu corpo
Quando imóvel morto
Em que momento um ser na fortuna roda
E em trivial mercadoria se transforma?
Diga-me Karl
Responda-me Leibnitz,
Digam-me ainda quando ao contrário
O efêmero elemento da terra se levanta
E em arte inesperada se sublima
Transformando-se em perene monumento.

VAPORES DE MARÇO

Dia de março
Calor e mormaço
Poemas se evaporam
No computador suor à solta
Lembro-me do chapéu de Lampião
Antropofágica e sublime mutação
Da carapuça de Napoleão
O primeiro tombou sob o sol
O segundo se atolou na neve
Para todo chapéu
Uma cabeça breve.

TABULEIRO DE DRAMAS

O tabuleiro de dramas está cheio
Cavaleiros de outros
Valentes caras-de-pau
Damas à beira das camas
Canastrões à beira do caos
Há vilões de montão
Toneladas de heróis de araque
Muitos escondem a fraqueza nos fraques.

RICARDO INGENITO ALFAYA – O poeta, escritor, editor e advogado carioca Ricardo Alfaya, é formado em Direito pela UFRJ e em Comunicação Social – Jornalismo pela Facha. É autor dos livros: Através da Vidraça, poesia, São Paulo, Poeco Editores (atual João Scortecci Editora), 1982. Sujeito a Objetos, inserido em Rios, coletânea de Poemas, Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2003, obra coordenada e patrocinada por Márcio Catunda, onde também se acham Elaine Pauvolid, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta. Integra 23 antologias. Obteve 22 prêmios literários, destacando sua inclusão por Leila Míccolis no projeto Brasil 500 Anos de Poesia, seleção dos mais significativos nomes da poesia brasileira, desde suas origens. É editor do Nozarte Informativo Impresso e Eletrônico, premiado pela IWA, International Writers Association, Estados Unidos, em 1995. Os textos selecionados integram o “Sujeito a objetos” incluído na antologia “Rios”. Veja mais Ricardo Alfaya.

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quarta-feira, outubro 01, 2008

XVI CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA



XVI CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA - o Congresso Brasileiro de Poesia, a ser realizada entre os dias 6 e 11. Tendo como tema “120 anos de Fernando Pessoa: tudo vale a pena!”, mais de duzentos poetas dos mais diversos estados brasileiros e de alguns países da América do Sul já confirmaram presença e participarão de uma programação diversificada com muitos recitais, performances, rodas de poesia, espetáculo teatral, palestras nas escolas e debates sobre as diversas formas do fazer poético. A novidade na programação deste ano é a realização de um encontro literário em homenagem ao poeta português Fernando Pessoa, destinado a alunos e professores, que contará com a participação de Jairo Klein, Jane Tutikian, Karina Duarte, Grupo Poesia Simplesmente, Luiz Edmundo Alves e Joaquim Palmeira. Esta atividade acontecerá nas manhãs dos dias 8 e 9, no auditório do SESC. Trinta e duas escolas do município participarão do evento deste ano, recebendo os poetas em suas dependências e doze delas deslocarão alunos para participar de atividades que acontecerão nas dependências do SESC. Os poetas também irão ao Presídio Municipal, APAE, Centro de Atenção Psico-Social e ao Hospital Tacchini. Entre os principais projetos que tradicionalmente compõem a programação oficial do evento destacam-se: “Poesia na vidraça” (que começa a ser executado já na segunda-feira dia 29 e consiste na utilização das vitrines das lojas do centro da cidade para exposição de poemas de autores brasileiros), “Poesia numa hora dessas?” (quando poetas apresentam recitais em repartições públicas e privadas), “Uma idéia tece a outra” (realizado na Biblioteca Municipal e que consiste no ‘empréstimo’ de um poeta a uma turma de alunos), além das tradicionais rodas de poesia na Via del Vino. RECITAIS FARÃO A DIFERENÇA Os organizadores mais uma vez apostam na realização de recitais de diversas correntes poéticas para garantir o sucesso do evento. Neste ano, dividirão o palco do SESC e de algumas escolas performances poéticos dos estados do Amapá, Pará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, além de Peru, Chile, Argentina e Uruguai. Embora Fernando Pessoa seja o personagem principal do evento deste ano, o escritor Machado de Assis também será homenageado, com a apresentação do espetáculo “Machado de Assis, cem anos sem”, que o grupo carioca Poesia Simplesmente encenará nos dias 6 e 10, no palco do SESC. Junto com o XVI Congresso Brasileiro também serão realizados o XVI Encontro Latino-Americano de Casas de Poetas e a XIII Mostra Internacional de Poesia Visual. A abertura oficial dos eventos acontece na tarde de segunda-feira, dia 6, às 17 horas, no Salão Nobre da Prefeitura Municipal. Às 19,30 horas, no Auditório da Escola Gen. Bento Gonçalves da Silva, serão realizados os recitais “Torre de Babel” e “A Voz dos Povos”. O evento é promovido pela Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves, SESC e Proyecto Cultural Sur/Brasil. A programação oficial pode ser encontrada no site http://br.geocities.com/poebras/

CELSO BORGES - A CARA DA POESIA XXI é fotografia, poesia e música. O livro/CD reúne 21 artistas maranhenses lendo textos do poeta Celso Borges e ensaio fotográfico de Eduardo Júlio. O trabalho tem, ainda, a participação especial dos compositores Chico César, Nosly, Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. A trilha sonora final é uma parceria do poeta com o baixista Paulo Le Petit. O projeto inclui, ainda, a apresentação do vídeo Vinte e um, editado por Celso e Beto Matuck e de um mural de fotografias com os escritores participantes. O poeta Antonio Celso Borges Araujo - São Luís (MA), 18 de maio de 1959. Escreveu Cantanto (1981), No instante da cidade (1983), Pelo avesso (1985), Persona non grata (1990) e Nenhuma das respostas anteriores (1996), todos de poesia. Foi um dos fundadores da revista cultural Guarnicê, em São Luís, nos anos 80. É jornalista e radialista. Reside em S. Paulo desde 1989. O fotógrafo Eduardo Júlio da Silva Canavieira - São Luís (MA), 19 de janeiro de 1971. Morou no Oriente Médio, Iraque, entre 1975 e 1980. Voltou ao Brasil, residindo por quatro anos em Salvador (BA). Fixou-se em São Luís desde 1985, onde formou-se em jornalismo. É fotógrafo desde 1995, já tem feito uma exposição - Olhar natural - em agosto de 1998.O quê XXI reúne linguagens diferentes: o texto no papel, a voz dos poetas gravada em CD, um ensaio fotográfico com os participantes, além de um vídeo. O título tem ligação com a chegada de um novo milênio e coincide com os 21 anos de poesia de Celso Borges. Daí a escolha de 21 poetas. Estão aqui poemas de quatro livros que o escritor considera representativos: No Instante da Cidade (1983), Pelo Avesso (1985), Persona Non Grata(1990) e Nenhuma das Respostas Anteriores (1996). XXI inclui, também, sete inéditos e um outro poema publicado apenas na revista cultural Guarnicê. Para a escolha dos poetas, Celso Borges adotou critérios pessoais escolhendo artistas que o acompanharam e dialogaram com ele nesse período. Participam do projeto: Alberico Carneiro, Antonio Carlos Alvim, Chagas Val, Eduardo Júlio, Fernando Abreu, Garrone, Guaraci Brito Jr., Joaquim Haickel, Joe Rosa, José Chagas, José Maria Nascimento, Laura Amélia Damous, Lúcia Santos, Luís Augusto Cassas, Paulo Lopes, Paulo Melo Souza, Ribamar Feitosa, Ribamar Filho, Roberto Kenard e ZéMaria Medeiros. Retrato em branco e preto O ensaio fotográfico do XXI é do poeta e fotógrafo maranhense Eduardo Júlio. Celso Borges fez questão de escolher um profissional que tivesse experiência direta com a poesia. O projeto gráfico, de Fábio Bosquê, objetivou remar contra a maré e imprimir um conceito antimoderno à estrutura gráfica. Antimoderno não no sentido conservador da palavra, mas como uma crítica ao falsamente moderno em que quase tudo é excessivamente colorido e fragmentado. Daí a opção pela escolha das fotos em preto e branco. A definição do formato evitou o tamanho tradicional de CD por temer que o ensaio fotográfico ficasse sub-aproveitado. Fábio e Celso acabaram achando um meio termo (20cm x 22cm) que valorizou texto e fotos. O som A sonorização dos poemas deste XXI objetiva realçar e enriquecer cada um dos textos. Na escolha das intervenções prevaleceu o equilíbrio entre o tradicional e o moderno, o simples e o sample, a mistura do acústico com elementos eletrônicos. Estão aqui, entre outros, o bumba-meu-boi, a transgressiva música de Stravinsk e o hardcore do punk inglês dos anos 70. Foram 150 horas de estúdio, entre abril de 1999 e fevereiro de 2000. A trilha foi composta a quatro mãos por Celso Borges e o baixista Paulo Le Petit, que mixou e masterizou; teve também participação especial do compositor Zeca Baleiro, velho parceiro de Celso, que compôs cinco temas, além de cantar Pedra de Cantarei, canção que mistura imagens de infância e sonha, de forma lúdica, com a existência de um futuro sem Deus. O paraibano Chico César é outro convidado do projeto. Seguindo a linha da mistura da tradição com a tecnologia, ele interpreta Amor, meu camarada tomando como base a batida de tribos do carnaval de João Pessoa. Outras duas participações musicais estão presentes neste XXI: a cantora Rita Ribeiro interpretando uma melodia de Zeca para o poema Música e o compositor Nosly, cantando In uma canção de amor. O vídeo A última faixa do CD que acompanha o livro XXI é uma espécie de colagem com fragmentos dos poemas na voz de todos os poetas participantes. Eles aparecem sobre o instrumental da música Pedra de Cantarei, parceria de Zeca Baleiro e Celso Borges. O vídeo foi editado a partir das fotografias tiradas por Eduardo Júlio e acompanha o conceito do projeto gráfico. É um trabalho em preto e branco, simples e com efeitos discretos. A edição final é de Beto Matuck, Celso Borges e Celso Toledo. PROGRAMA LITERATURA EM REVISTA - Local: Cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 – 2ºandar – fone: (85) 3464.3108)Data: dia 04 de outubro, sábado, 18h Tema: Poesia: Bendita e Bem Dita Convidado: Celso Borges, poeta, letrista de música. Contatos com Celso Borges: (85) 9919.7357 / 3262.6030 – cbpoema@uol.com.br.

LANÇAMENTOS: "OS PASSOS PERDIDOS" obra de Alejo Carpentier, com tradução de Marcelo Tápia.Leitura de fragmentos do romance por Frederico Barbosa, Claudio Daniel e Marcelo Tápia. "LUMES", uma antologia de Haikais de Pedro Xisto, com seleção textos e notas de Marcelo Tápia. Coquetel e leitura de poemas do livro com a participação de Antonio Vicente Pietroforte, Ivan de Campos e Maria Amélia de Carvalho. Dia: 02 de outubro Quinta, à partir das 19 horas SERVIÇO: Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura Evento Gratuito Endereço: Av. Paulista, 37, Bela Vista - próxima à Estação Brigadeiro do Metrô São Paulo – SP Tels.: (11)3285-6986 ou (11) 3288-9447 www.poiesis.org.br/casadasrosas

RODRIGO CAPELLA – O livro “Transroca, o navio proibido” está sendo adaptado para o cinema. Livro do escritor e poeta Rodrigo Capella, está sendo adaptado para o cinema pelo cineasta gaúcho Ricardo Zimmer, com orçamento de R$ 3,5 milhões e locações em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. A trama de “Transroca: o navio proibido” se passa a bordo de um navio que faz um cruzeiro por um lugar fictício, Perúsia Grande, e tem como destino a cidade de Parja. A bordo estão Kall, o detetive, e sua mulher Amanda, em lua-de-mel. Durante a viagem, um assassinato deixa os passageiros estarrecidos e coloca o detetive em ação. O cineasta Ricardo Zimmer justifica porque escolheu o livro para adaptar para o cinema: “o clima de mistério, de intrigas e de suspeitos multifacetados é contagiante até as últimas frases quando então surpreendentemente Kall, revela o criminoso”, argumenta o diretor, destacando que “a resposta tão bem construída pelo autor, revela-nos o mundo de homens que matam por interesses, amor, futilidades, ciúmes e medos”. Além de “Transroca: o navio proibido”, Capella lançou “Como mimar seu cão”, “Rir ou chorar”, “Poesia não vende” e “Enigmas e Passaportes”, entre outros. Informações: www.rodrigocapella.com.br Rodrigo Capella. Escritor e poeta. www.rodrigocapella.com.br

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