sábado, janeiro 03, 2026

ENTREVISTA, POEMAS & LIVROS DE JAQUE MONTEIRO

 

 

JAQUE MONTEIROJaque Monteiro é escritora, mãe livre atípica, arte-educadora e que nasceu e mora no cerrado do Planalto Central, Brasília, capital jovem senhora. É filha da diversidade da mãe mineira com pai baiano. Ela já participou de antologias de poemas, haicais, contos e setígonos. É autora de Estações de humor – Em clima de haicai; Pilar Tenoz – romance juvenil em fase de publicação, do I Oficina de Catadupas do Brasil (2025), que é um livro resultante da Oficina de apresentação da Catadupa, um novo gênero poético brasileiro; AS SETIGONISTAS ao quadrado, uma dança poética que se fez livro de poemas setígonos em coautoria com noi soul, a ser lançado muito em breve; SETÍGONO: o brasileirinho ousado – Ensaio: teoria, prática e poesia, um livro com ensaio e poemas setígonos; BorboLERtras, que é um projeto de valorização e incentivo da mulher na cena literária brasileira.

Ela diz logo que é amante da palavra, viaja alhures na imaginação, flerta com a fotografia, adora contar e ouvir histórias-estórias. E mais: que transita pelas possibilidades artísticas, experimentando-as, vivenciando-as, pintando o sete e fazendo arte.

Possui perfil no Instagram: @jaquemonteiroescritora e no Youtube: @aarielamall1

E já começa aqui poetando:

 

“Quem canta, seus males espanta”

Quem dança, manda-os embora de vez

Quem embala poesia, transcende!

“Prazer em nos conhecermos!”

“Deixo um taquinho de mim, dá-me um tiquinho d’ocê.”

 

Agora vamos conhecê-la um pouco mais.

 

LAM – Como e quando se deu seu encontro com a arte e, consequentemente, a poesia?

 

Gente, desde cedo eu amo tanto brincar com as palavras, enveredar-me por novos aprendizados e inventar! Nesses momentos, minha alma pueril siligristida junta e separa letrinhas, inventa jeitos e trejeitos. O rebuliço mágico da imaginação a diverte, a alquimia da descoberta ao se deparar com um novo vocábulo a faz dar piruetas de regozijo, acordar uma palavra dorminhoca lhe tira suspiros ou gargalhadas!

Para além da escrita, sou arteira desde criança. Pintava o sete e o lemniscata: infinitas possibilidades. Descobri que o céu não é o limite! Escova de cabelo virava microfone, lata de tinta, palco, toalhas e lençóis, figurino... pura inteligência orgânica superativa, as realidades na minha cachola borbulhavam! A inteligência artificial não ousou bater à minha porta, e se vier encontrará o seguinte aviso: “estamos lotados”. Até acho que a danada não vai muito com minha cara, vez ou outra, olha-me de soslaio e me torce o nariz.

Retomando o tema sobre a escrita, a minha morada até os dias hodiernos, quiçá sou-lhe íncola pelo tempo vindouro indeterminado, tudo começa assim: era uma vez... em casa, com a minha mãe, aprendi a ler e a escrever muito cedo. À época, meus pais tinham uma banca de revistas. Eu ganhava gibis da turma da Mônica, livros e figurinhas autocolantes; lembro-me de um caderninho de arame onde, em cada página, eu colava uma delas e escrevia uma história atinente à imagem pregada (idade de uns quatro anos); eu me deleitava com aquilo. Dizia que seria escritora e cientista. Como eu gostaria de ler aquele caderno hoje! Infelizmente ele se perdeu em algum momento. Continuei a escrever na adolescência e, até então.

Tenho gosto pela experimentação. Transito lá e cá, ali e acolá. Os poemas e eu flertamos sobremaneira, temos uma conversa descontraída, um Tataritaritatá acolhedor, entretanto a prosa me arrebata desta dimensão, e, com naturalidade, meus textos acabam se inclinando para a prosa poética.

Aqui, uma confissão: cometi o terrível crime de deixar meus escritos aprisionados em gavetas (entenda-se por gavetas: disquetes, pen drives, computadores, celulares, cadernos, pedaços de papéis diversos e gavetas mesmo). Gente do céu e da terra, isso não se faz! Há pouco tempo foi que entendi o quão terrível, para eles, isso deve ter sido! Por fim, atualmente, decidi fazer a publicação deles, de forma tranquila e gradual.

 

LAM – Quais influências marcantes da infância e adolescência prevaleceram na sua formação artística?

 

Na infância, como dito anteriormente, influenciaram-me as histórias dos gibis da Turma da Mônica, figurinhas autocolantes, o livro A fada que tinha ideias, da Fernanda Lopes, Flicts, do Ziraldo, a Fada Estrela Azul, quadro do programa Carrossel, TV Brasília, décadas de 70 e 80, onde a escritora Stella Maris Rezende cantava e contava histórias de livros infantojuvenis de autores brasileiros. Eu continuo admirando o trabalho dela. Seus livros são muito bem escritos, não é por acaso que já ganhou inúmeros prêmios, o Prêmio Jabuti figura entre eles. Encantam-me seus projetos, com os jovens, de incentivo à leitura.

Na adolescência, malgrado eu ser uma leitora ativa, eu me interessei pela leitura das histórias embaladas pelo movimento corporal, foi quando passei a frequentar aulas de ginástica rítmica de dança, dança aeróbica e street dance.

Na fase adulta, fiz aulas de dança do ventre e aprendi tocar alguns instrumentos musicais, sem muita técnica, só “de ouvido”, como dizem, para brincar com meu pai, que toca sanfona, e com minha mãe, que toca viola caipira, eu os acompanho com o contrabaixo ou pandeiro, mas não somos profissionais, só amantes da música e de fazermos boas bagunças musicais em aniversário de amigos.

 

LAM – Você é arte-educadora. Fala pra gente como se desenvolve esta sua atividade?

 

Seria um pecado guardar esse entusiasmo artístico só para mim. Como arte-educadora, tenho imensa alegria de compartilhar dinâmicas de propagação do fazer artístico, com o compromisso de tornar a arte e a cultura acessível ao máximo de pessoas possível.

Antes de me tornar arte-educadora, integrei um grupo de teatro sob direção de Rosi Rosa.

No passado, coordenei alguns projetos de inclusão social, saúde e qualidade de vida através de oficinas de música, de teatro e de leitura para adolescentes moradores da área rural, a exemplo do projeto Chá da tarde, com escritoras e escritores, onde os jovens liam as obras de autoras e autores convidados, depois tinham a oportunidade de conversar com elas e com eles.

Atualmente estou implantando o projeto BorboLERtras – oficinas para Elas, uma proposta referente ao incentivo da presença das mulheres na cena literária, seja como leitoras, seja como escritoras, por intermédio de várias oficinas. Cito algumas delas: a Oficina de aprendizado e prática dos gêneros poéticos brasileiros: Poetrix, Aldravia, Spina, Setígono, Catadupa e Gradativa; a Oficina de escrita espontânea poética sensorial; a Oficina de dinâmicas e confecção de objetos lúdicos (guarda-chuva poético, janelas poéticas, tarô poético, sussurros poéticos...) para interação poética com o público nas ruas, eventos, escolas etc.; e, a Oficina Elas contam, de criação de contos.

 


LAM – Em 2024 você publicou Estações de humor: em clima de haicai. Fala pra gente como se deu a incursão por esta modalidade poética e a receptividade da experiência.

 

Estações de humor: em clima de haicai integra prosa poética com haicai, ou seja, é um haibun, e surgiu após eu me encantar pela leitura dos haicais de Bashô, quanta profundidade poética, em três linhas, sobre cenas comuns! E pela irreverência nos haicais de Leminski.

A modalidade poética supracitada tem boa receptividade no Brasil, e a comunidade de haijin brasileiros vem aumentando e se consolidando como grupo de divulgação desse estilo de poema japonês.

 

LAM – Você tem um projeto de publicação de um romance juvenil, Pilar Tenoz. Conta pra gente o que é este seu empreendimento literário e de quando será lançado para o público.

 

Esta pergunta eu começo respondendo de trás para frente, para justificar o não aprofundamento da minha resposta a ela.

O contrato com a editora prevê a publicação para 2026, portanto eu não posso entrar em muitos detalhes, mas posso adiantar que, Pilar Tenoz é um romance juvenil com referências que funcionarão como pontes entre os jovens da atualidade e o contexto social, político e cultural dos anos 80. O livro proporciona o contato com algumas obras e canções do período.

 


LAM – Você está lançando agora um novo livro: I Oficina de Catadupas do Brasil -2025!!! O que trata o livro e o que significa Catadupar?

 

O livro I Oficina de Catadupas do Brasil – 2025 se trata da apresentação da Catadupa, um novo estilo poético que eu criei há mais ou menos dez anos, juntamente com outro estilo, a Gradativa, entretanto só saíram da gaveta em 2025.

A Catadupa recebe esse nome, porque sua configuração lembra uma cascata ou uma escadaria de versos, isso se deve à quantidade e à disposição específicas de palavras em cada verso.

Além da apresentação das características e da estrutura da Catadupa, a obra traz o resultado e o registro do trabalho realizado pelas poetas e pelos poetas na oficina durante os dois meses de imersão teórico-prática nessa forma poética.

Eu mostrei o estilo para noi soul, poeta da Bahia, ela gostou e levou a proposta ao grupo Pulsão Poética. Outras pessoas aderiram à propositura. O interesse aumentou e movimentou o grupo. Foi nesse momento que criamos um ambiente acolhedor só para trabalharmos com a Catadupa, assim surgiu a I Oficina de Catadupas do Brasil – 2025.

A princípio, termo catadupar tem sido usado para designar a ação de ler ou escrever catadupas.

 


LAM – Você participa do grupo Setigonando a vida. Como se deu a descoberta do Setígono e quais são as propostas do grupo?

 

Conheci o Setígono através do projeto Pulsão Poética, onde noi soul me convidou para participar do grupo Setigonando a vida, no WhatsApp, com o propósito de trabalharmos o novo gênero poético.

Dentre os objetivos do grupo posso elencar: aprender sobre o Setígono, praticar e difundir o novo gênero para além da comunidade do WhatsApp. Por fim, publicar uma antologia de Setígonos.

 

LAM – Você participa da antologia Setigonando a vida: um novo estilo poético. Como tem sido setigonar?

 

Setigonar tem sido uma instigante experiência de descobrir, combinar e espalhar as infindáveis fragrâncias que exalam dessa flor aromática de sete pétalas.


 

LAM – Você tem um outro projeto também prestes a lançar, As setigonistas ao quadrado – uma dança poética. Explica pra gente como é essa dança?

 

Este livro é uma dança em harmonia sincrônica de duas mentes bailarinas e luminosas de alegria, como uma dupla que se encontra no salão, cada qual com movimentos a contribuir para a performance, onde a coreografia vai surgindo durante a música setigonal. Dança e canção se fundem em melodia de compassos compostos por enarmonia de notas e relativos, passos diferentes que se comunicam; notas iguais com significados diferentes e, notas diferentes que ressoam parecença, pois foi assim que o projeto foi concebido, cada uma reuniu 35 setígonos próprios, sem interferência da outra e, o resultado: a dança poética em compassos enarmônicos e relativos integrando diferenças, semelhanças e completude.

A cada dupla de páginas, o setígono de uma poeta conversa com o setígono da outra poeta, e cantam, e dançam.

Foi um mimo realizar este projeto em parceria com noi soul, de quem eu admiro o trabalho artístico e que tenho em alta conta, a amizade, consolidada durante nossos encontros artísticos

 

LAM – Que outros projetos você tem por perspectiva realizar?

 

Para 2026 tenho intenção de concretizar alguns projetos, dentre eles, estes:

SETIGONO, o brasileirinho ousado – Ensaio: teoria, prática e poesia. Vou roubar um pouquinho aqui, pois este primeiro já está publicado, só não foi divulgado ainda. É um ensaio sobre o meu queridinho gênero poético, o setígono. A primeira parte da obra é constituída pelo ensaio e, a segunda, por poemas setígonos.

Do Brasil ao Japão – uma volta poética. Um livro de poemas autorais passeando pelos gêneros: Poetrix, Aldravia, Spina, Setígono, Catadupa e Gradativa (os estilos brasileiros), e, Haicai, Tanka e Haibun (os estilos japoneses).

I Oficina de Gradativas do Brasil – 2026. Projeto semelhante ao das Catadupas, todavia o gênero trabalhado será a Gradativa.

Vou contar até 100. Um livro com 100 microcontos, os quais possuem até 100 caracteres.

Miniminhas Florais. Este trabalho nasceu em 2025. É a integração entre desenho e escrita.

Buzi e outros dois projetos de livros infantis, os quais escrevi para minha filha, quando ela era criança (hoje ela tem 22) e, atualmente, ela me pediu para os publicar. Buzi, inclusive, eu já o ilustrei.

Romances engavetados. Pretendo trabalhar na revisão de dois romances engavetados, Axis mundi e Orgulho, preconceito, razão sem sensibilidade (título provisório) e continuar a escrever o Pé-de-bode, com os capítulos iniciais já escritos.

Bom, espero que 2026 tenha um pouco mais de 365 dias (risos). Parece muita coisa, e é, há outras misturadas entre elas, porém meu ritmo é meu amigo. A gente projeta, faz o que dá conta e tudo bem.

Não me pediram, mas se eu pudesse dar um conselho eu diria: escreva! Mesmo uma lista de compras. Deixem que as palavras brinquem com vocês, e quem sabe a lista de compras vira um lindo poema! De novo: o céu não é o limite!

Gostaria de agradecer ao Luiz Alberto pela oportunidade de falar sobre o que amo e que me movimenta! E pelas perguntas maravilhosas que me fizeram viajar alhures no tempo, instigando a vontade de abrir velhas gavetas empoeiradas, dos armários e da mente. E mais, pelo seu trabalho de “espraiarte” pelo mundo! Gratidão!

 

Agora ela nos premia com diversos de seus poemas, vamos conferir, primeiro, as Catadupas, depois, as Gradativas, Setígonos e um Soneto.

 

PATRIARCAICO

 

vento

voa lento

versa muda, alento

 

arrepia

assopra, expia

acorda essa utopia

 

urge

uivante, surge

urgente vem, insurge

 

irradia

instiga rebeldia

irrompe arcaica voivodia

 

(jaque monteiro – Catadupa terceta)

 

LETRA ALUMIADA

 

lucivéu

listrado dossel

lusco-fusco véu

lumia palavras no papel

 

paridas

plurais, floridas

partenogênese de vidas

placebo das minhas feridas

 

flechas

furam brechas

fomentam fomes ventrechas

fiapos contorcidos em mechas

 

metaverso

militante verso

moldado e controverso

moldura de avesso inverso

 

ilumina

inócua lamparina

invoca letra menina

irrompe o casulo, agripina

 

(jaque monteiro – Catadupa quarteta)

 

CASAMENTO ARRANJADO

 

atos

acordos insensatos

amores tépidos, caricatos

 

coisificados

contratos firmados

corações gélidos, desinteressados

 

(jaque monteiro – Catadupinha terceta)

 

DOÇURAS DA PAIXÃO ESTREADA NO CAMPO

 

bananeira

beldade roceira

brota na ribanceira

balança ao vento, faceira

beija sorrateira, galhos de amoreira

 

amora

adocicada aurora

acalenta sem demora

amores agridoces estreados agora

assanhados, emergentes, urgentes toda hora

 

hesitantes

hígidos visitantes

húbris chamas militantes

herege fogueira dos amantes

hirta os pelos, explosões delirantes

 

delícia

doce blandícia

desejo saciado, carícia

delicados afagos sem malícia

dentes-de-leão, paisagem propícia

 

(jaque monteiro – Catadupa quinteta)

 

ALQUIMIA

 

lua

letra nua

legitimo-me sua

 

silencio

sozinha balbucio

sigiloso ritual luzidio

sorvo verbo carnal, arrepio

 

atravesso

arredio reverso

arvoro além-universo

absorvendo magia de verso

aldrava áurea anuncia meu regresso

 

(jaque monteiro – Catadupa mista)

 

RAÍZES

 

não sei se consigo...

 

largar o meu lar

vai me machucar

 

árdua tentativa

arrancar do abrigo

a essência nativa

 

o coração dói

rasg’alma, corrói

eful-lo pra trás

serei eu, capaz?

 

Não há outro jeito

eu levo e respeito

lembranças comigo

serei a morada

da história guardada

 

(Jaque Monteiro – Gradativa em redondilha menor)

 

PACHORRA VESPERTINA

 

balança a palmeira ao vento

 

da rosa, a pétala cai

a cena gesta um haicai

 

na areia, brinca a esperança

a vó ri c’olhar atento

lembra o tempo criança

 

a vida, às vezes, doída

hoje está siligristida

peço licença, tristeza

agora aqui, só leveza

 

o lápis tatua verso

devaneia, entoa imerso

cantiga suave, alento

enche a mente de harmonia

e o papel de poesia

 

(Jaque Monteiro – Gradativa em redondilha maior)

 

SETÍGONOS

Um setígono sobre a criança siligristida. Jaque Monteiro

 

há uma criança siligristida

morando dentro de mim

a menina curiosa e atrevida

descobriu que broto de letra

vira palavra florida

que versa poesia colorida

tornando a vida mais divertida

 

Um setígono sobre a Caliandra, Jaque Monteiro

 

ergue-te, coralina alegria de renovação!

Rubra Caliandra, flor-do-pôr-do-sol

desperta-te no auge da seca estação

e reflete, vibrante, em minhas meninas

a tortuosa beleza das vidas retorcidas

na pálida farfalheira ruidosa do cerrado

... e me arrebata em suspiros carmesim!

 

Um setígono sobre os apaixonados, Jaque Monteiro

 

os grilos orquestram a serenata

eis um casal apaixonado!

A cabeça mora nas nuvens

vagalumes são estrelas que voam

a lua é lustre, no céu pendurada

a noite abraça os enamorados

diante da janela dos sonhadores

 

SONETO

 

Astro-Rainha

Jaque Monteiro

 

Já amanheceu e o Febo dorme tácito

Depois da Lua, vem a grande azáfama

Brilho escondido nessa dura amálgama

Acobertado pelo alvor estrépito

 

Ter que dar conta dessa agrura, o plácito

Estrela alvíssara, servil achádego

Destruição, ele explodindo trôpego

Queimando tudo, derramando vômito

 

Força lunar, traz seu poder esplêndido

Aquele escrito com papiro e efulgi

As testemunhas de um passado lépido

 

Com gravidade, reivindica os efulgido

Astro-Rainha, coração efulgido

Sem seu suporte, o Sol ruir, veríamos

 

 

Agora veja detalhes do livro da I Oficina de Catadupas do Brasil -2025 aqui & mais sobre Setígonos aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Veja mais aqui.

 


segunda-feira, agosto 25, 2025

DEMOROU MUITO... DE ADMMAURO GOMMES

 

 

UM VERSO NÃO BROTA À TOA ou O POETA ENTRE A ESPERA E A DEMORA, O ESTALO!

 

Luiz Alberto Machado

 

Olá, lente, minha saudação!

Achegue-se mais e vamos prosear sobre a poetada que proporcionou este nosso encontro.

É muito bom poder dividir a fruição da leitura deste livro: você tem nas mãos uma singular obra, razão pela qual estou aqui para dizer, tão somente, o que ela representou para mim por todo momento em que tive a oportunidade de lê-la.

Indispensável dizer que não tenho mais idade nem nunca tive a satisfação da cabotina enrolação no concernente às amizades que tive e privei ou desperdicei, sobretudo no quesito dos arroubos elogiosos, tendo em vista que sempre disse na lata o que penso ou desgosto, além de ser vacinado quanto aos achegamentos hipócritas mais simpáticos, o que me faz viver muito bem com a minha solidão. Desses expedientes não faço uso, nem nunca fiz. Disse e está dito, preveni.

Simplesmente saúdo a sua chegada e dou as boas-vindas a você que resolveu passar as vistas no que tenho a dizer, antecipadamente grato.

Não será nada demais, só impressões pelo que desfrutei com a experiência da leitura.

 

UMA: O TEMPO DA GENTE & O DE TODAS AS COISAS

 

Nem arte nem sabedoria é algo acessível, se não há aprendizado.

Demócrito

 

Como sou metido a beletrista e não passo dum escrevinhador cheio das pregas, então poderia aqui me amostrar tratando acerca da experiência de vida do Bach, por exemplo; ou de Beethoven, ou mesmo da explosão criativa de Stravinski, Schoemberg ou Villa-Lobos.

Poderia trazer relatos das paixões de Poe, das extravagâncias e rebuscamentos estéticos de Baudelaire, ou das ousadias de Ginsberg, Larkin ou Montale.

Ou da solidão de Toulouse-Lautrec, da grandeza de Modigliani ou da dualidade de Escher.

Talvez até das cenas de Shakespeare, da épica de Brecht, ou das sacadas de Plínio Marcos ou das depressões geniais de Sarah Kane.

Poderia, mas não. Sem empáfia, todo esse arrazoado é só para dizer que todos os citados viveram e poetaram ao seu modo e no seu tempo. Aprenderam com o seu momento e se superaram.

Evidencia-se, então, a necessária consideração sobre o tempo da Natureza: a semente germina e, depois de determinado tempo, brota por meio de ramos, folhas e flores para frutificar.

Assim, como tudo na vida, com a gente: o espermatozoide e o óvulo, a gestação, o parto e o processo de desenvolvimento até a velhice. Tudo tem seu tempo.

O que nos distingue é a possibilidade da arte e levo tão a sério o que diz Ingrid Koudela: “A arte é um meio para liberdade, o processo de liberação da mente humana”.

Condução similar a de Roger Garaudy ao escrever Apelo aos vivos e reiterar no seu Ainda é tempo de viver: “Não há em tudo isso qualquer nostalgia do passado, qualquer sonho de retorno ao que passou ou de uma idade de ouro, mas, ao contrário, é um avanço, baseado na tomada de consciência de tudo aquilo que, em nossa época, representa a promessa de uma nova mutação do homem”.

Quer dizer, então: aprender leva tempo; depois, a colheita dos frutos.

Graças! Uso mais aquele Natal de Vinicius: “Para isso fomos feitos”.

Admmauro Gommes, aquele que conheci adolescente num ambiente escolar, folheando livros da geração Beat, e que na ocasião se mostrava um inquieto e promissor rabiscador de reiterados versos, um dedicado jovem na aprendizagem da arte poética, hoje se expressa como um dos principais expoentes da poesia destes tempos.

Ao reencontrá-lo depois de décadas passadas, lá estava eu diante de um professor que já assumiu diversas secretarias de educação, presidiu e dirigiu instituições, afora poeta e compositor de letras musicais. Tem a seu favor e na minha alta conta o magnífico trabalho de extensão realizado na Famasul, em Palmares, reunindo um grupo de pesquisa e debates que redundou na publicação de diversas antologias sobre Poesia Absoluta, com a participação tanto do mentor, como dos alunos do curso de Letras da faculdade. Esta sua atividade prova que é um sujeito que partilha com todos tudo aquilo que aprendeu. Aplausos de pé pela iniciativa.

Em suma: AG possui um currículo invejável e, como tal, interminável, não bastando dizer que é uma das poucas pessoas que eu conheço que está entre as mais generosas, quanto entre as mais habilidosas para enfrentamento e resolução de quaisquer desafios. Pronto. Se não pintei o quadro completo, pelo menos aqui terá uma breve noção a respeito desta pessoa amiga.

O melhor é que me surpreendi ao ler alguns de seus livros, não todos porque já passa da casa dos trinta títulos publicados – mas ainda os lerei, todos. E entre os que li tive o prazer de detectar a trajetória do seu caminho, suas tentativas e reconstruções, suas passadas e recuos, sua personalidade se firmando com o aprendizado das tantas lições.

Dos seus cometimentos às saudáveis expressões de suas múltiplas faces que se imprimem numa única efígie: a de quem se projetou para fazer a sua própria caminhada. E nela pontuando as influências marcantes, como a da poesia de Fernando Pessoa – inclusive uma de suas obras homenageando o grande poeta-filósofo lusitano -, e a não menos impactante Poesia Absoluta de Vital Corrêa de Araújo – de quem o próprio AG reuniu, selecionou, organizou e publicou diversos livros de e sobre esta poesia inovadora -, afora tantas outras que rechearam o caldeirão no processo de formação de sua própria voz, da sua própria dicção, do seu próprio timbre.

Afora isso, como já disse, publicou algumas dezenas de livros de poesias, sem contar estudos de poética e linguística, todos carimbados com a sua marca desbravadora e competente.

Agora digo: o poeta que vi adolescer danado pela vontade de dizer alguma coisa com seus escritos - cometia os primeiros versos juvenis como quem solto na buraqueira, jeito que fosse de não mais parar sabe-se lá onde -, na evolução do seu processo formativo de dias e noites insones, o resultado: chegou a um estágio de maturidade própria daqueles que estão prontos para a dádiva do reconhecimento público e alcance das perspectivas para além do aqui e agora, indubitavelmente coisa de alcançar a posteridade.

 

DUAS: DESEMBRULHANDO O PRESENTE, DEMOROU NADA!

 

Adote o ritmo da natureza. O segredo dela é a paciência

Ralph Waldo Emerson

 

Eis o aviso de Heráclito: “O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá, governo de criança”. É ele que diz que o tempo é polemos, ou melhor, competição e luta – mais precisamente, o filósofo assinala que se trata do pai de todas as coisas, o rei de tudo.

Quase a mesma coisa daquele Tempo da canção do Caetano Veloso.

Sim, enquanto outros se arrastam entre relógios e calendários, tudo passa e ninguém se dá conta direito. Vai ver e já era. Um estalo e o futuro foi pro passado. Coisas da vida.

Não seria dispensável refletir sobre o que disse Hermann Hesse: “Na arte o tempo não tem nenhum papel a desempenhar. Na arte não existe nenhum tempo perdido, ainda, que só ao final de longo esforço se alcance o máximo em intensidade e perfeição. O ofício do poeta é tão sagrado quanto cheio de renúncias e não permite um desvio do trágico para o social”. Nada mais apropriado, pelo menos para mim.

Pois bem. AG em seu magnífico poema Demorou muito diz que foi preciso 40 anos para a descoberta. Ah, um felizardo, diga-se de passagem, porque a minha epifania catártica só se deu lá pra depois dos meus 50, quando saí do tempo dos homens e surgiu o Nitolino que era outra vez, eu mesmo, aquele menino travesso da beira do rio que fui - muito embora eu as tivesse por décadas desde os 10 anos de idade. É quando a gente se despe de carapuças, carapaças, amarras, camisas-de-força, grilhões.

Antes disso eu vivia como acertou Tolstoi: “O tempo e a paciência são dois eternos beligerantes”. Era sobrecarregado de indagações intrínsecas à natureza humana, em busca de mim mesmo e com as milhares maneiras de errar o próprio caminho, entre tumultos e agonias – nem sabia que era a formação do conteúdo da experiência.

Foi preciso saber de Flaubert: “Talento é paciência sem fim”. Ah, a segunda tenho de sobra; o primeiro, buscando cada vez mais longe.

Também a lição da Gaia Ciência de Nietzsche: “É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo quando foram efetuadas, serem vistas e entendidas”. Sim, sempre tive a sensação de que havia perdido muito tempo, até demais: por que não antes, ora, bati cabeça, errâncias indissolúveis, desvios tantos de perder o rumo e o atalho.

Foi Exupéry quem trouxe alento: “Foi o tempo que perdeste com a rosa que fez tua rosa tão importante”.

Mesmo assim parecia que nada aprendia.

Até Carlyle: “O infortúnio do homem tem origem na sua grandeza. Porque há algo de infinito nele e ele não pode ser bem-sucedido se enterrando completamente no infinito”. Ôpa! Era a descoberta de saber daquilo que se pensa ser maior do que propriamente somos e isso é para lá de revelador.

Logo esqueci fracassos, impotências, frustrações, porque só queria me superar, além de mim e ouvir o sussurro sutil do meu próprio coração. E me extraviar: porque não temi ficar só, a solidão é íntima da descoberta.

Não precisava mais saber o amanhã, mas seria bom que não morresse antes de descobrir algo a respeito. Nada. Nietzsche nas suas Considerações extemporâneas me avisava: “O saber que é absorvido em demasia e sem fome, e até contra a necessidade, já não atua mais como motivo transformador”. Aprendi a dosar, ora.

Assim foi, mas não é de mim que tenho que falar, é de AG e ele com o seu poema Demorou muito deu uma guinada: como se o poema tivesse sido a alavanca para um enorme salto, um reengenhariamento para lá de deveras. Pois teve a tranquilidade de se dar conta e, depois, se desfazer das pedras no calcanhar – sobretudo as humanas - e sair pelos degraus cinza de mármore ladeira abaixo, como se fosse Rimbaud descendo ao inferno, aos empurrões, às pancadas e o mundo escondendo os perigos inúteis dos monstros invisíveis que ele teve de desvelar nas correntes do tronco da agonia.

Uso dos seus próprios versos para dizer que ele teve que se deixar exposto às queimaduras das muitas fagulhas das dores do nada e juntar os sacos de aço com todos os tremores do mundo para arrastá-los de onde o medo das máscaras atrás da janela com suas cortinas e gravuras costumavam surpreender no desespero da espera e não eram nada vezes nada.

Teve de se repetir para perseverar e quem não injusto consigo e os demais, quão estreitas, íngremes, escorregadias são as travessias com suas pedras falsas, a ponto de ter que saber que quem fecha os olhos perde o que tem que aprender e ao abri-los nada mais restará, tudo passou.

Teve que se saber Ícaro e Fênix ao mesmo tempo, como se flagrasse o horizonte de expectativas da hermenêutica de Gadamer, ou como diria Paul Ricoeur: naquela do dá a pensar. Se não era a conquista, pelo menos a maravilha! Chegou a hora e pronto. E a impiedosa sinceridade de Demorou muito – a revelação, pepitas de vasta mina poética à leveza do verso, do ritmo, e AG depondo à caveira como se descartasse doutrinas para a legitimação do exercício de suas atividades: a descobrir as secretas faces da natureza, as coisas escondidas. E nele, poeta epifânico, a leitura da cor, do som, do sabor da linguagem que revela o inefável e constrói a própria existência e a aprendizagem da convivência.

AG neste poema alcançou a liberdade, sim aquela mesma mencionada por Krishnamurti: “Liberdade é um estado e uma condição da mente”. E acrescenta o avatar hindu: “Precisamos estar sós, não, contudo, no sentido de isolamento do monge. Estar verdadeiramente só significa liberdade. Não é a solidão da autopiedade nem do isolamento. É o maravilhoso ver, claramente, que estamos sós”. E AG fez da sua introspecção solitária a viagem poética mais que siderada para a descoberta valiosa: a poesia pulsava dentro de si.

 

UM POETA EM TEMPO INTEGRAL: ESCREVO POR NECESSIDADE DE EXPRESSÃO

 

O real não está na saída, nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

Guimarães Rosa

 

Ao ler este livro de AG tive a mesma sensação que teve Kafka ao percorrer a obra de Strindberg: “Sinto-me melhor depois de lê-lo... Sinto-me seguro e tenho diante de mim uma grande perspectiva”. Ou como Gandhi ao estudar Thoreau: “Li com muito prazer e retirando dele muitos benefícios. Isso porque, em síntese, o transcendentalista estadunidense questionava: Se não sou eu mesmo, quem o será por mim?

Também a mesma emoção que tive ao ouvir pela primeira vez Going for the one, do Yes – antológico álbum da banda inglesa, cuja capa o artista Roger Dean ilustrou com um homem nu contemplando os arranha-céus da contemporaneidade. Sim, tudo isso e muito mais.

É que neste livro o texto é seu espelho, sua construção libertária – seu ato de poetar no verso de uma vida inteira por mais de dois mil e trezentos poemas cometidos! E que no meio dessa tuia de versos chega altivo, callida junctura na diegese emblemática de quem bebeu infinitos segurando as rédeas do destino, eternizando minutos para quebrar a flácida casca do grito, colecionando naufrágios e revoadas, embriagado de sonhos, vestindo-se de pássaro na lua nova para apagar estrelas, e chegar ao ponto de conhecer as manhãs que são noites que se cansaram da escuridão e, ainda por cima, concluir: “Escrevo porque preciso construir um mundo outro, mais ameno”.

E foi experimentando versos e sonoridades: “toda minha fortuna são pedras contadas”. E foi pelo mundo afora sem sair de si, com as paisagens tatuadas na alma.

Ele sabe e diz: um poema nunca termina. Dele a maestria no domínio das metáforas, no jogo entre o fictício e o verdadeiro, o dúbio e o ambíguo.

Quem sabe onde? Diz ele: só precisamos de brisa e não mais pensar em nada. E soube sair da alegoria da caverna platônica e passou a poetar como O lutador de Drummond, o Catar feijão de João Cabral, quando não Traduzir-se de Gullar. Ou mais: como A alegria dos peixes de Chuang-Tzu, as terras inventadas de Bandeira, o pensar de Sartre, ou o canto de Orfeu de Rilke.

Sim, porque entendeu o que quis dizer Exupéry: “O principal estava invisível. O que faz minha propriedade é aquilo que não se vê e que liga as pedras, as árvores e as cabras e me liga a tudo”.

Não, ainda é pouco: e as 400 ideias?

Logo de relance os grandes como Nietzsche, Wilde, Cioran, Twain, Shaw, as tiradas de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues, Millôr, ou aquelas do homem ao cubo ou ao quadrado do saudoso Leon Eliachar, por aí, entre outros no meio dum time pesado. Não só se revelou apenas um simples aforista de mão cheia, como um frasista produtor de apotegmas, anexins e chistes, lapidares coisas do pensamento ligeiro e afiado, mas também praticante de verdadeiros monósticos apreendidos nas funduras da fonte inesgotável do Vate VCA. E com tantas sutilezas, do tipo daquela resposta de D. H. Lawrence a uma criança que perguntou por que as árvores são verdes.

Ademais, AG é a comprovação do que Heidegger consigna em sua Introdução à metafísica: “No poetar do poeta, como no pensar do filósofo, de tal sorte se instaura um mundo, que qualquer coisa seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o chilrear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade”. Ganha pela grandeza de espírito. E me deu uma lição: “É mais fácil explodir um poema que explicá-lo!

Hoje sou o seu aluno que recebeu por aviso: “Cuide bem de si, mas não esqueça das outras notas musicais”. Aprendido.

Pois bem, na condição estudantil de hybris com meus arremedilhos trelosos carregados de solecismos - justo pela razão de nunca reclamar do espelho por refletir em mim mesmo o único culpado de tudo -, só por isso mesmo é que me habilito destes encômios ao autor.

Digo mais o que dele aprecio: a vida precisa de mistérios.

E mais: ninguém conhece ninguém, nem a si mesmo. Exato!

De modos que ouso reiterar que o passado nunca passa, mas que quem pode construir algo de novo ganha nada mais nada menos que a vida.

Como disse no primeiro parágrafo e reitero agora: você, lente, tem em mãos aquele que poeta: “Somente a esperança aquece os olhos do futuro”. É isso e vamos aprumar a conversa.

Melhor que tudo que eu falei, o poema:

 

DEMOROU MUITO

Tempo utilizado para escrever este poema: 26 minutos (21:14 - 21:40 de 17.2.13). Para corrigi-lo/alterá-lo: 50 minutos

 

Admmauro Gommes

 

Demorou muito para perceber

que as pedras que me feriam o calcanhar

eram degraus de mármore e cinza

na escada da solidez

e as nuvens e a poeira que me envolviam

sairiam logo assim que o sol nascesse.

Mas o sol demorava

e isso me afligia como um gato desconfiado

durante uma tempestade de gelo

na madrugada fria e solitária

ou invernadas outonais

que acontecem nos verões primaveris.

 

A cada passo, o pé se perdia

no espaço das horas e nada avançava

como única perna de um escravo

amarrada ao tronco na injustiça.

Todos são injustos em algum momento

e eu também me colocava todas as correntes

no meu tronco da agonia.

 

Tudo era um problema

e dores íntimas surgiam do nada

como fagulhas invisíveis queimando

o peito enfadado dilacerado

de tanta espera.

De inútil espera.

De desespera.

 

Mas eu não sabia que tudo isso seria

como engrossar o tronco da árvore

para resistir as tormentas

como calejar as mãos

para dar murro em pedras humanas

como reforçar as veias do pescoço

para suportar os sacos de aço

onde se colocam os temores do mundo

 

Ninguém me avisou que eu teria

que passar por lugares tão estreitos

e íngremes e escorregadios

e enfrentar perigos inúteis.

Tudo era para ter o aroma da felicidade

e beijos e flores e cores e afagos

mas nada de fantasmas medievais

nem internéticas assombrações.

Era para ser o filme do ano

a conquista sempre e inevitável

e o renascer da esplendorosa manhã

onde os campeões dão a volta olímpica

com a taça na mão.

 

Era para que o sucesso batesse à porta

todos os dias enquanto o sol dourasse os sonhos

e à noite me desse um beijo na face

e dissesse para sonhar com os anjos

e eu sonhasse com eles e acordasse

como num conto de fadas.

 

Mas eu não sabia dos monstros

que existem nos contos

e tem uma hora que eles aparecem

e nos assustam com um gesto pálido.

Eu não sabia que uma noite

podia durar mais que a claridade da manhã

e a tarde já é prenúncio da noite

e a noite se irmana com o que morre.

Eu não sabia que o sorriso é chave

para abrir portas internas

e sorria pouco

para não me ver além das portas.

 

Demorou muito saber essas coisas

que o mundo esconde e ninguém ensina

até que a vida nos dá uma tapa nas costas

alguns empurrões e pancadas

nos fazendo descer ladeira abaixo

como um pacote qualquer.

 

Somente quando se chega embaixo

de ponta-cabeça olhando para cima

é que se percebe o quanto se desceu

e a oportunidade de comer os degraus

e voltar ao lugar que estava é imperiosa.

Também não me disseram que à meia-noite

aparece um dragão na sombra do quarto

e pronuncia palavras noturnas

como se paredes falassem a língua do silêncio

e as janelas escondessem máscaras

e que o os dragões conhecem

onde se esconde o nosso medo.

 

Foi então que percebi

talvez tarde, talvez não

que é ilusão lutar contra monstros invisíveis

e a melhor maneira de combate

é permanecer de olhos bem abertos

para que as sombras não se pareçam reais

e não se fuja do nada.

O nada nada mais é que nada mesmo.

mas isso também foi muito difícil de entender.

 

Alguns monstros

nos deixam a pele à flor dos nervos

e são bichos depressivos que prendem o fôlego

e durante à noite fazem gravuras estranhas

por trás das cortinas

mas ninguém me avisou a hora que eles aparecem.

Apenas me ensinaram fechar os olhos

que eles desapareciam.

Sumiam do quarto mas entravam

por dentro dos meus olhos cansados

por portas invisíveis.

 

Percebi que de tudo que há no mundo

é preciso provar com os próprios dentes a sua consistência

e os nervos se fortalecem quando se estica a perna.

Só aprendi cuidar da garganta somente depois

que surgiu a rouquidão

e apesar dos monstros e duendes

e carrancas infernais de outro mundo

compreendi por fim que é preciso provar a vida

urgentemente

em todos os momentos

para que o prazer suplante

o ardor da pimenta

e saborear essa iguaria divina que desce

pelos lábios e nos encanta

deliciosamente

até lamber o prato de doce

quando o último pedaço se acaba.

 

NOTAS DO PRÓPRIO ADMMAURO GOMMES:

 

1 ANTES TARDE...

 

No ano de 2013, escrevi o poema DEMOROU MUITO, de uma forma diferente e, diante da estranheza que eu mesmo considerei, o submeti à análise de alguns teóricos. Esse texto representa, sobretudo, um momento emblemático de minha produção poética. Depois de escrever mil poemas entre 1987 e 2012, recebi influência direta do amigo e do poeta Vital Corrêa de Araújo. Logo, a forma de composição e as metáforas arrebatadoras e, às vezes, ininteligíveis à fácil interpretação textual, têm a sombra da reorganização verbal vitalina. Por outro lado, principalmente o poema Demorou muito reflete indagações e mudanças de foco existencial, bem como expõe uma atualização da visão de mundo do homem e do escritor que transpôs a primeira década do século XXI, envolto em interrogações que só se levantam depois da quarta dezena de anos vividos.

 

2

O prefácio de Nito sobre Demorou muito deveras me emocionou. Primeiro, pela erudição que bem o caracteriza na condição de escritor e conhecedor das Artes. Sobre isso, não precisa apresentação pois o caminho delineado por ele para explicar esta obra demonstra quão profundas as águas ele bebeu durante seu percurso poético artístico de vida.

De sorte que o texto de sua lavra é um capítulo à parte, e necessário para o entendimento do livro que se apresenta. Ele consegue dar relevo e destaque ao poema mencionado quando procura espelhá-lo com grandes autores da literatura universal, o que me enche de desconfiança como uma galinha que bota um ovo e se espanta com o feito. Escrever é sempre um ato de libertação de invasão em territórios já habitados, mas sentir-se descrito é uma é uma forma de ser perscrutado por estranhos médicos e ficamos entre o deslumbramento suspense do diagnóstico.

Diante de sua viagem poético-filosófica apreciando a paisagem, caríssimo Nito e meu sempre professor, por mim, a conversa já está aprumada! Depois de quarenta anos, também lhe agradeço publicamente. Isso também demorou muito.

Ler um poeta e mergulhar em um universo particular e tentar decifrar as incógnitas de insondáveis labirintos Luiz Alberto percebe isso quando diz.

 

A NOVA MODALIDADE DE RIMA DA POESIA BRASILEIRA

 

Vital Corrêa de Araújo

Poeta, escritor, jornalista,

bacharel em Direito, filósolo e crítico literário.

 

O poeta incrementa a polissemia da palavra. Esta é sua sina e obra. A transferência de sentido é vital à poesia. Mestre da metáfora e doutor em aliteração, processo este que provém de ritmo peculiar, o poema é aquele que embeleza a linguagem poética, impossibilitando a univocidade, graças à ênfase de plurissignificação que concede, Admmauro Gommes tem nos brindado com uma obra ensaística e poética inavaliáveis.

Sua mais recente façanha poética toma a forma de uma especial maratona com o verbo. Em 2013, mergulha (com id e tudo), numa composição poética, e da imersão em tal processo, que durou contínuos 26 minutos, levanta o poemário (épico na acepção de algo de alta qualidade e fôlego demiúrgico) Demorou Muito. Embora não tenha demorado quase nada. O título já traz uma dialética irônica e um contrassenso que antecipa o conteúdo do trabalho poético.

Consumiu o poema, de 13 estrofes e 120 versos (ou linhas – com 11 pausas), 26 minutos – 21:14h às 21:40h, do dia 17.02.2013. E “exatamente” 50 minutos para corrigi-los.

Flagra-se do início uma especial atenção a uma estratégia poética, em que se percebe uma solidez e firmeza de abordagem consistente em crença no sol e mescla de estações. Escada, desgraça, pedra, sol nascente, tempestade, madrugada, outono, inverno, verões (primeira estrofe). A segunda estrofe traz o caminho: passos, pé, perna (em que duas é demais), tronco (da injustiça, tortura), culminando em correntes de férrea agonia. A terça estrofe inclui dor, ilusão, dilaceramento e desespero de espera.

Esse intróito é vital à AG para o périplo pelas palavras, num itinerário heroico e resoluto calejar de mãos e intumescer das veias do pescoço para suportar a carga do mundo, os ombros da existência, os sacos de aço, os temores e a resistência textual.

A quarta estância, de apenas oito versos, é belíssima em sua concisão diamantífera, em que a metáfora vegetal excele e a sensação de seiva e o floema essenciam o líber da árvore poema. Imerge então o poeta num labirinto de esforços e naipe (ou paiol) de dificuldades que resultam ao renascer uma esplêndida manhã poética, numa olímpica vitória da poesia a desfilar na página de taça na mão.

Toda essa fervilhante inquietação, essa problemática exposta sem fraturas, dizem respeito a fases e complexidades de composição do poema. Admmauro Gommes transparece o processo poético, prenhe de criatividade. Exerce ele uma demiurgia capaz de ordenar o caos (e ordenhar o cosmos), usinando palavras, siderurgiando metáforas inoxidáveis, com o aço essencial do verbo (e sem cansaço)!

Advém então o súbito, em forma de questionamentos e interrogações prenhes de imagens da mecânica dos dias, subtaneidade que intensifica a luta textual violenta, vital, com tapas, empurrões, pancadas, ladeiras, decessos, quedas de ponta-cabeça, situação que leva poeta a “comer degraus” e pronunciar palavras noturnas que exalcem claridades de manhãs, tardes grávidas de noites e noites irmanando com a morte, janelas escondendo máscaras e muros falando a língua do silêncio.

Brota então a visão maior e alta de que a melhor maneira de combate é a permanência dos olhos abertos à espera de que as sombras pereçam. E o poeta não fuja das palavras.

E límpida, e mesmo meridiana, floresce – como rosa do asfalto, a visão de que o nada nada mais é que nada, o que, se é difícil de entendimento, é passível de substanciação pelo poema admmauriano.

Em suma, Demorou muito foi um poema rápido (não ligeiro) e essencial. Uma necessidade apodítica, algo provido de intensa purgação, capaz de forte catarse, situação a que o poeta se voltou, com propósito irrecusável, para construir um poema que desconstrua a tradição dialeticamente superada, enferma de anacronismos insustentáveis, e inaugure uma poética nova, e privilegie uma nova modalidade de rima, em que a sensibilidade lírica seja exponencial.

Demorou muito de Admmauro Gommes é um poema inaugural de uma poética que avulta e abre a veia da poesia brasileira a perspectivas inovadoras do nosso verbo poético. Assim, o Prof. de Teoria Literária da FAMASUL – Zona da Mata – PE, Admmauro Gommes faz história e se torna contemporâneo dele mesmo na poesia.

Eis um exemplar exemplo de Poesia Absoluta. Caso em que a expressão poética independe das variáveis categorias ou condições de espaço ou tempo (kantianas ou não). Daí, a falibilidade do argumento de “26 minutos”, que nada exprime de relevante ao poema.

Eis um objeto de palavras, com começo, meio e fim, absolutamente não nessa ordem.

Eis uma situação poética verdadeira (também porque absoluta), em que o poema termina em meio a uma mera ou sublime perplexidade, posto que se trata de domar o caos do verso que reflete o do mundo, em busca do cosmos verbal humano. É a ação demiúrgica de um poeta abraçado à luta (vã ou não) com a palavra para dar sentido não a elas, mas ao mundo.

Eis um dos poemas capitais da neoposmodernidade poética brasileira. Um poema do nosso tempo. Não do outro. Porém de Admmauro Gommes.

 

ADENDO: A marcação (os 26 minutos de construção poemática) é um falso pano de fundo temporal, uma astuta e diversionista forma de disfarce da realidade aparente: AG, em Demorou muito (pouco), apenas produziu um poemassíntese, num movimento calculado, porque consistiu apenas na realização de um potencial poético acumulado ao longo de uma vida magistral de preparação refletiva e filosófica, que redundou na atualização de uma potencialidade expressiva rica e consequente, isto é, consciente e elevada. Mesmo ídica.

 

 

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