quinta-feira, janeiro 31, 2008

PRIMEIRA REUNIÃO



Foto: Derinha Rocha

TRANSCEDÊNCIA
(Para Ari Lins Pedrosa)

Luiz Alberto Machado

O habitual de João Pessoa
Fisga o céu de Maceió
Onde o sol vai dormir no mar
Dormir no mar
E as jangadas de papel
Carregadas de sonho
Pro encontro do farol
Caminhou para onde
Enfiado na carne o horizonte
E abriu ferrolhos atrativos
Da imagem transcendental.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

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quarta-feira, janeiro 30, 2008

POETAS PAULISTAS



ETHEL FELDMAN

BOM BOM DIA

- Respira antes que tropeces na palavra. ..
- hmfffffffffffff
- Agora inspira. Nesta pausa reflecte. Encontra um sinónimo
- Mas e o... aquele... sabes? O, o ... gaita! Estou tão esquecida!
- Com pressa apressas a conversa. Atropelas o acto de estar.
Inspiro. Respiro. Antes de expirar - a pausa pedida. Por fim largo:
- Quando sugeres presente, cantas assim: pre, pre pre-sente! Será que é mesmo assim? Um milésimo antes de sentir? Inspira e canta-me outra …

-*-

Faz de conta que a verdade não é senão a verdade – sem tempo
Faz de conta que o desejo não é senão o desejo – sem dor
Faz de conta que o principio se confude com o fim – no vazio

Faz de conta que o tempo não é tempo - espaço
Ali mesmo onde o branco inventa a cor do teu sentimento

-*-

Sou Maria Madalena
Mais Madalena
que Maria
no corpo protegido
a vontade de amar

- E Maria?
- Ressuscita feito Jesus
- Transformista?
- Como tu quando te descobres a poente

Me invento Madalena
enquanto vou sendo Maria

assim sendo
vou-me inventando

-*-

essas mãos
que são por ora quatro
tão insanas
se tornam duas
tão doidas
se confundem
numa
tão. .
por dentro de ti
somos nenhum

Espera amor deixa que o sol pouse sem pressa
pelo tempo que prometemos existir

-*-

toada artodoada
a arte da nota sem tom

no baile no tango
me embalo

na língua a minha
o som deste som
sem tom

A poeta paulista ETHEL FELDMAN reside em Lisboa, Portugal. Ela realiza um trabalho poético digno de aplausos, apesar de até agora inédita, coisas da vida. Reúne seus trabalhos poéticos no seu blog Paladar da loucura.

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terça-feira, janeiro 29, 2008

REVISTA VEREDAS



A revista Veredas foi criada em 1998 com o intuito de incentivar a leitura e a escrita e hoje é uma revista dedicada à publicação de minicontos, micronarrativas e discussões acerca deste tema, editada por Ana Mello e Marcelo Spalding. Além da proposta editorial, estão disponíveis artigos e uma mini-livraria. Confira.

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segunda-feira, janeiro 28, 2008

POETAS ALAGOANOS



VALDEREZ DE BARROS

ACALANTO

Buscarei um recanto
Onde chorarei meu pranto,
Onde entoarei um canto
Triste, no entanto,
Será como um acalanto,
Que suavizará, como um manto,
O frio do meu desencanto...
-*-

DÁ-ME

Dá-me a luz do teu olhar,
Que minh'alma ilumina...!
A melodia da tua voz,
Que aos meus ouvidos soa divina...!
Dá-me a paz do teu sorriso,
Que me contamina e acalma...!
O aconchego dos teus braços,
Onde me sinto segura e amada...!
Dá-me o sabor da tua boca,
Que adoça o meu viver...!
A suavidade das tuas carícias,
Que me incendeiam, me dão prazer...!
Dá-me o fogo da tua paixão,
Que acelera o meu coração...!
Do teu corpo quero o calor...
Dá-me o teu amor...!

-*-

À DERIVA

Sou tripulante
De um barco
Levado pelo mar,
À deriva,
Sem âncora,
Sem bússola,
Sem rota,
Sem rumo,
Perdido,
Sem esperança
De encontrar
Um porto seguro...

-*-

DESVARIO

No silêncio do meu quarto,
Sozinha na cama,
Por debaixo do lençol,
Meu corpo queima e arde
De desejo de você...!
E me abraço, me acaricio,
Pensando serem suas mãos a me acariciar...!
O desejo vem mais forte ainda...!
Mas, num lampejo da razão,
Volto a mim, desse desvario...
Percebo amargamente
Como dói a solidão,
Como sinto sua falta,
Como queria que você estivesse
Sempre ao lado meu...
Como eu lhe amaria...!
Perdidamente lhe abraçaria!
Ardentemente lhe beijaria!
No seu corpo iria me perder
De tanto amor e prazer...!
Ah, se um dia eu lhe encontrasse...!
Se você também me amasse...!
Nos seus braços, feliz, eu cairia
E chorando, a Deus agradeceria,
A graça do seu amor ser meu...

-*-

NINHO DE AMOR

Na minha fantasia,
Construi uma casinha,
Onde fiz o nosso
Aconchegante
Ninho de amor;
Com cortinas nas janelas,
Ao redor um lindo jardim,
Onde flores de várias cores,
misturam seus
Deliciosos odores...
Na varanda,
Uma rede azul,
Onde nos deitamos,
Nos beijamos
E fazemos amor,
Sentindo em nós
O clarão da lua,
Que com sua magia,
Lá do alto nos vigia,
Um pouco enciumada...
Mas, carinhosamente
Ela nos contempla
E, com suavidade,
Sorri deslumbrada
Com a nossa felicidade...

-*-

EM MIM REPOUSAS…

Um dia eu te amei
E a esse amor
Dei tudo de mim...
Um dia te beijei
Suavemente, ou
Com um arrebatamento,
Que jamais sonhei sentir...
Um dia contigo fiz amor
Com intensidade,
Com ardor, numa entrega total,
num frenesi absoluto,
Corpos e almas unidos
Na mesma plenitude
De emoções, de sentimentos...
Um dia te dei meu amor,
Que era maior
Que o infinito...
Maior do que
O meu coração
Podia suportar
E se derramava em ti...
Hoje, em mim repousas,
Na minha saudade
Mais doce, mais querida,
Na minha lembrança
Mais dolorida...

VALDEREZ DE BARROS é formada em Educação Artística pelo CESMAC, com especialização em Música. Além de poeta é professora aposentada, foi incluída na antologia “Poesias de Alagoas”, organizada por Carlito Lima e Edilma Acioli, pelas Edições Bagaço/2007. Reúne seus trabalhos no Recanto das Letras e no seu lindo blog Gritos da Minha Alma.

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sexta-feira, janeiro 25, 2008

PRIMEIRA REUNIÃO



MACEIÓ, UMA ELEGIA PARA OS QUE OUSAM SONHAR

Luiz Alberto Machado

A cidade emerge no meu riso matinal e o sol faz paradeiro na minha alma desafortunada. Os meus passos reviram ruas redimindo meus pesares, remorsos e alucinações nessa paradisíaca paragem. É tudo muito lindo premiando o meu devaneio. E eu recito loas pelas beiradas da idéia, pelas abissais paralelas do meu exílio atrevido, de minha presença castigada.
Nesse cenário eu vou de corpo e alma. Vou pelas transversais, avenidas, perpendiculares, a reconhecer a punição da vida no que de vário se faz real pelo esplendor do mar e onde se lavam culpas no negrume do asfalto, onde se pezunham esperanças na imensidão do espaço, onde se constroem todas as avenças e desavenças de nada.
É outro dia sempre e a gente a sonhar com o estrondo da felicidade mesmo que tudo seja apenas feito de partidas e chegadas no desencontro dos anseios.
É outro dia sempre e a gente com o plano de vôo circunscrito na incerteza, como se a regra desse jogo fosse sempre o confronto da distância entre começar e acabar, sem ter prorrogação na morte súbita indesejada.
É outro dia e sempre a cidade emerge na minha finitude atlântica que bordeja pelas apaziguadoras ruas breves da Mangabeiras e se arrasta na expectativa da Jatiúca, aderna pelo emaranhado da Ponta Verde, singra pela beira-mar da Pajuçara e dá nos cotovelos rentes com a fabularia do Jaraguá. É lá onde me eternizo nas cinzas.
Adiante está a lama do Salgadinho empestando a Avenida onde uma guerra oculta cospe mulheres paridas e deserdadas dos arredores do Tabuleiro do Martins e homens ciclópicos que ululam desmemoriados de tudo sem nada, oriundos do longe mais distante das bandas de lá além do Mundaú e que povoam a superfície perversa da exclusão. E me refaço porque é outro dia e sempre me esforço subindo a rodoviária até o Farol onde contemplo de tudo: a fantástica panorâmica, o silêncio dos roncos cansados, a espera dos madrugadores por condução, a perspectiva que bate as botas em Cruz das Almas e o meu desejo que escorre descendo o Riacho Doce e se esquece dos pleitos que se tornaram causas inúteis revogadas previamente pelos tribunais de então. Mas é outro dia sempre e as crianças no meio fio da madrugada com seu cobertor de mar e de noite com sonhos incertos no barulho do trânsito indômito. É outro dia e um punhado de adultos amontoam o teatro cristão com o berreiro dos desentoados em preces devotadas com seus sotaques e timbres nas rezas por seus dissabores, por remoetas embaçadas, por sacrifícios ostentatórios, pela salvação das almas da ignomínia. E tudo parece um abstrato aceno de paradoxais festeiros na celebração da tragédia pelas mesquinharias políticas, pela soberba nos limites onde o canavial impera ao lado dos alguns poucos privilégios de gados e miséria nos pastos de outro tabuleiro, onde amadurece a desimportância da oportunidade e todos são escravos do passado mesmo que se achem senhores de si e do futuro, mesmo que a vida seja um lapso de tempo nas causas perdidas.
Mesmo assim a cidade emerge e meu coração se avexa com o tumulto do dia e se esboroa pela tarde e faz aconchego na noite que anuncia outro dia para um mais que desejoso amanhã. Amanhã que já será hoje, hoje que será ontem e tudo que esquecerá. E esquecendo não veja criança estendida na calçada da manhã, nem pedinte mendigando no semáforo, nem velho xingado nas filas, nem violência como efeito da desigualdade, porque os adultos precisam acordar ciosos de si a vingarem o humano à revelia dos mandos no sonho de todos os sonhos.
A verdade é que a cidade emerge nos meus olhos e já é outro dia. Mesmo assim continuo atrevido e teimoso de sonhos, enquanto o meu coração bate buliçoso e atônito pelas ruas de Maceió, entoando uma elegia para os que ainda ousam sonhar.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992. Poema incluído na antologia “Poesia de Alagoas”. Recife: Bagaço, 2007.

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