FANDANGO DO VAI QUASE NUM TORNA
FANDANGO DO VAI QUASE NUM TORNA
TUNGA – O escultor,
desenhista e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho
e Mello Mourão – 1952-2016), é um dos artistas mais emblemáticos da arte
contemporânea. Filho do escritor Gerardo Mello Mourão e da ativista social Léa
de Barros Carvalho e Mello Mourão, nasceu em Palmares (PE) e trabalhou no Rio
de Janeiro, onde concluiu o curso de Arquitetura e Urbanismo, na Universidade
Santa Úrsula. Iniciou sua carreira na década de 1960, produzindo desenhos e
pequenas esculturas e traçando imagens figurativas com temas ousados, como nas
séries O Perverso, Pensamentos, Máquinas, Charles Fourier (1772/1887) e Paisagens
do Desejo. Foi co-editor da Revista Nove (1969-1971), uma publicação
de poesia moderna, e colaborou com a revista Malasartes (1976), e com o
jornal A Parte do Fogo (1980).
Em 1975, ele apresentou objetos tridimensionais na
exposição individual intitulada Tunga - Ar do Corpo, no Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro.
Na década de 1980, passou a criar instalações, nas quais
utilizou grande variedade de materiais para explorar a ideia de conjunção,
magnetismo, transmissão e isolamento de energia e forças invisíveis, sempre
justapondo-os com rigor formal. Neste período criou obras icônicas como Trança
[1983]; ÃO [1981]; Xifópagas Capilares entre Nós [1984], Vanguarda
Viperina [1985]; Eixos Exógenos [1986-2000]; e, Semeando Sereias
[1987-1998]. E ainda deu início aos trabalhos com formas e signos que marcariam
sua carreira.
Nos anos 1990, ele intensificou a pesquisa sobre as
relações energéticas entre diferentes metais em suas instalações, passando a
usar conjuntos de ímãs em diversos trabalhos, elaborando suas instaurações -
nome dado pelo artista às ações que ativavam seus trabalhos tridimensionais ou
imersivos. Diferente da performance, que implica uma noção relacionada ao
desempenho, a instauração trata-se de "fazer acontecer algo que você
testemunha, que não estava ali, com uma luz nova.” Além disso, ele promove uma
série de ações com terracota, argila e maquiagem, publicando, em 1997, o
icônico Barroco de Lírios, primeiro livro editado pela Cosac &
Naify, que faz um retrospecto das principais obras de Tunga realizadas entre
1981 e 1996.
Entre os anos 2000/2016, realiza uma reprodução
Morfogenética, ocupando três andares do Centro Cultural Banco do Brasil e
preenche a rotunda da instituição com uma luz vermelha e voz de Arnaldo
Antunes, atores e bailarinos, dirigidos pela coreógrafa Lia Rodrigues,
aplicavam maquiagem à instalação. Também idealizou a instalação Tríade
Trindade [2001]; as performances Encarnações Miméticas e Experiência
com Ynaiê [2003]; a série Quase Auroras [2005]; os filmes Quimera
[2004], que concorreu à Palma de Ouro, na categoria curta-metragem, em Cannes,
em 2004, e Medula [2005], ambos em parceria com Eryk Rocha; e, as obras Psicopompos
e Vers La Voie Humide, no Château La Coste, na França [2008-2015]. Em
2004, inaugurou a Galeria True Rouge - primeira instalação permanente do
Instituto Inhotim, um desdobramento da série de performances True Rouge,
apresentadas desde 1997 em diversas ocasiões e cuja inspiração parte de uma
poesia algébrica do escritor Simon Lane. E, em 2012, inaugura a Galeria
Psicoativa Tunga, também em Inhotim, que abriga uma exposição permanente
apresentando mais de 20 obras do artista sendo muitas icônicas como Ão (1981);
Vanguarda Viperina (1985); Palíndromo Incesto (1990-1992); Tereza (1998); Prole
do Bebê (2000); À la Lumière des Deux Mondes (2005); X-estudo (2009);
Psicopompo Cooking Crystal (2010); e, Toro Condensed (1983) and Toro Expanded
(2012).
Tunga recebeu a condecoração Chevalier des Arts et des
Lettres (Cavaleiro das Artes e das Letras) pelo embaixador da França, Alain
Rouquié. E, em 2005, foi o primeiro artista contemporâneo a exibir sua obra, À
la Lumière des Deux Mondes, na pirâmide do Louvre.
Sua erudição e formação filosófica se refletiu em uma
produção artística que envolve o cruzamento de pesquisas em diferentes áreas do
conhecimento, apresentando interfaces com a literatura, filosofia, psicanálise,
teatro, ciências exatas e biológicas, tratando-se de uma obra potente, profunda
e autorreferente que nega o tempo linear e se apoia fortemente na
materialidade, topologia, simbologias e processos de transformação e
metamorfoses.
Atualmente, a equipe do Instituto Tunga trabalha na
elaboração do Catálogo Raisonné que irá mapear todas as obras
bidimensionais do artista em uma única publicação bilingue, em português e
inglês, online e gratuita. Confira.
TUNGANDO A VIDA
A ARTE DE TUNGA
ART’UNGA
DIÁRIO DOS ZÉS – Se um Zé é pouco, dois
quase é demais; que dirão de três e outros tantos Zés, tudo de cara lisa e
prontos pras mais ineivadas doidices, hem? Esta é uma reunião das muitas e
quantas situações escandalosas & presepadas das personalidades ilustres e
dos mais afamados anônimos, todos os Zés de Alagoinhanduba. Confira.
INTERLÚNIO DO INOMINADO MARUPIARA PÉ-FRIO...
BILARO, INSÓLITA FUGA DUM ZÉ DE SI MESMO!...
ERA DEZEMBRO & LA MADÓNA DI URSATT...
ZUZEZIM: A AVAREZA PERDE VALIA QUANDO A VIDA VAI PRO SACO
JOSEDÁCIO: O QUE É DE ARTE E CULTURA QUE EU NÃO SEI
DOS REVEZES QUE NÃO POUPAM A AMIZADE E O AMOR
O IMPERADOR & SEU GENRO MALQUISTO
ZÉ CANTÃO & O JANTAR DOS COMPADRES
O AMOR DE ZINHAZINHA & CALANGUINHO ZÉ
ZÉ VICÁRIO: TIRAR PROVEITO PRA SE LASCAR DEPOIS...
ZÉ PULIÇA, UMA ENTREVISTA COM O SICÁRIO FANTASMA...
ZÉ MAGO & ESCOTOMA ONÍRICO (OU O TESTAMENTO QUE ENTROU PRA HISTÓRIA)...
ZELADIM: O QUE DE PAI, AMIGOS, VIDA, A MULHER...
LABATUT, ZÉ CRAVO & MARIA ROSA
CENTENÁRIO DE DAREL VALENÇA LINS – No dia 9 de dezembro
de 2024, comemorei o centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e
professor, Darel Valença Lins (1924-2017), com a publicação do livro
Dareladas, lançado tanto em Palmares, sua terra natal, como também no Rio de Janeiro.
A ARTE ALÉM DAS MARGENS DO UNA - Lá pelos idos dos anos
2000 realizava eu um curso de pós-graduação em Teoria Literária, na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando em determinada ocasião
fui instado a falar do quarteto artístico palmarense: Ascenso, Hermilo, Darel
& Tunga. Após minha exposição, o professor doutor, ensaísta, poeta,
romancista e crítico literário amazonense, Rogel Samuel (1943-2023)
aproximou-se e declarou-me apaixonado pelos poemas presepeiros de Ascenso,
leitor assíduo das invencionices de Hermilo, admiração exaltada pela obra do
Tunga e, com bastante ênfase, que privava de amizade pessoal com Darel. Depois
disso uma amizade estreitou-se entre eu e o professor ao longo do tempo, com
muitas trocas de figurinhas e presentes, entre elas a entrevista exclusiva que
ele me concedeu pro Guia de Poesia, que eu editava à época no Projeto
SobreSites – o Diferencial Humano, do Rio de Janeiro, e que, depois,
republiquei no meu zineblog Tataritaritatá, juntamente com o seu romance O
amante das amazonas (Itatiaia, 2005), seus livros de poesias, outros de seus
volumes de Teoria da Literatura, afora, o que seria o mais importante: me
apresentar pessoalmente o artista conterrâneo, Darel. O tempo foi passando e o
professor, sempre atento, mantinha-me informado acerca dos estudos realizados
sobre a obra do artista palmarense, a exemplo do mestrado e, posteriormente,
doutorado de Vitor Hugo Gorino, os estudos de Gisela Monteiro e Vivian Horta, a
dissertação de Thayz Guimarães, artigos de jornais e revistas, entrevistas, catálogos,
exposições, enfim, o que circulasse de e sobre a obra do Darel. Já nos anos
2020, participava eu de um curso de Artes na USP, quando conheci o arquiteto e
artista visual, Rubens da Cunha Lima, que também havia convivido por um bom
período de tempo com o conterrâneo artista, inclusive tendo Darel desenhado a
filha dele Rubens de próprio punho e o presenteado com a obra. Foram muitas
conversas com ambos, quando resolvi enfim homenagear definitivamente o artista
palmarense. Então saí juntando o material que me havia sido disponibilizado,
como os textos de Clarice Lispector e Aníbal Machado, os estudos acadêmicos de
Vitor Hugo Gorino, Thayz Guimarães, Vivian Horta, Marcilene Ladeira, Gisela
Monteiro e Lenia Sousa; as publicações de matérias em diversas revistas e dos
jornais O Globo, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora, Correio
Brasiliense, Jornal da Tarde, Diário do Recife, Última Hora, Jornal Auxiliar,
entre outros. Ainda vieram os artigos jornalísticos de Ferreira Gullar, Luiz
Gutemberg, Sheila Kaplan, Vera Martins, Walmir Ayala, Suzana Braga, Elias
Fajardo Fonseca, Vera Pedrosa, José Mário Pereira, Paulo Reis, Leda Rivas, Ivo
Zanini, Carlos Soulié do Amaral, Carlos Newton, Arnaldo Pedroso D’Horta, Yllen
Kerr, José Roberto Teixeira Leite, Casimiro Xavier de Mendonça, Rosa
Nepomuceno, Mário Pedrosa, Roberto Pontual, Augusto Rodrigues, Quirino da
Silva, Fernando Silveira, Edla Steen e José Geraldo Vieira. Tinha mais: artigos
acadêmicos de Pedro Sánchez Cardoso, Sonia Pereira, Maria Luisa Távora; de
Congressos, de Clarival Valladares, Textos de Exposições, de Enciclopédias de
Artes, entre outras, como as apresentações de Nori Figueiredo, Gabriela Javier,
Heloisa Aleixo Lustosa, Frederico Morais, Sérgio Pizoli, Marcia Pontes e Oto
Reifschneider. Saí juntando tudo, organizando e selecionando o material todo
para o que ficou depois convencionado por Dareladas. Aí juntei uns desenhos de
Palmares antiga, feitos pelo artista plástico e compositor, Luiz Barreto; umas
aquarelas elaboradas pela poeta, blogueira e artista visual paranaense, Luciah
Lopez; outros desenhos e pinturas de Rubens Cunha Lima, Ricardo Bertacin Aidar,
Cibele Sarkis Carneiro, Márcia Gebara e Luz Damatta, todos integrantes do
Gentamiga Atelier e participantes da plataforma Ubqub. Mais dois textos: um da
escritora e professora Graça Lins e, outro, do produtor cultural, artista
visual e diretor da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, João Paulo de Araújo.
Juntei tudo, acrescendo uns desenhos e textos que cometi e deu nisso. Na
primeira parte do volume, Vid&arte de Darel: De corpo inteiro, uma linha do
tempo com a vida & a obra de Darel, ilustrada pela série Palmares
antigamente, do artista plástico e compositor musical, Luiz Barreto. Na segunda
parte Darel: Mais que possa me reconhecer, na qual reuni depoimentos os mais
diversos recolhidos de estudos acadêmicos, catálogos, revistas, jornais,
publicações em geral, tudo tratando acerca da obra de Darel. Na terceira parte
Darel: por trás das aparências, reunindo depoimentos do próprio artista,
coletados de entrevistas e depoimentos pessoais, frases e pensamentos dele, que
foram encontrados em diversas publicações. Na quarta parte Cidade Darelada,
textos que escrevi inspirados na obra dele, com ilustrações da escritora,
artista visual e blogueira, Luciah Lopez. Na quinta parte, Cinema Mulher, em
que manifesto minha homenagem às mulheres dareladas, textos e músicas que
escrevi também inspirados na sua arte, com ilustrações de diversos artistas do
Atelier Gentamiga, de São Paulo. Na sexta parte, Darelando na Biblioteca, texto
escrito pelo produtor cultural, artista visual e diretor da Biblioteca Fenelon
Barreto, João Paulo de Araújo. Taí o livro, uma simples homenagem pela passagem
do centenário deste grande artista palmarense.
Veja mais Darel aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
STELLA MARIS REZENDE – É uma escritora mineira
de Dores do Indaiá, premiada autora com dezenas de livros publicados, tanto para
o público adulto, como o infantojuvenil. Ela é mestre em Literatura Brasileira
pela Universidade de Brasília, participa de feiras literárias e ministra a
oficina Letras Mágicas. É atriz e interpretou a Fada Estrelazul do programa
Carrossel na TV Manchete e a tia Stella na TV Record. Já ganhou 4 Jabutis,
entre eles o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano e o de Melhor Livro
Juvenil para A mocinha do Mercado Central (2012), 3 Prêmios
João-de-Barro (1986, 2002 e 2008), Prêmio APCA/Associação Paulista de Críticos
de Arte (2013), Prêmio Brasília (2014), Barco a Vapor (2010), Bienal Nestlé
(1988), Prêmio Seleção Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, e dezenas de selos
de Altamente Recomendável da FNLIJ/Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil. Em 2022, recebeu o Prêmio Hors Concours da Cátedra Unesco de Leitura
da PUC-Rio por Alegria Pura em reedição.
Recentemente
ela lançou o elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026),
ocasião em que nos concede esta entrevista.
Com vocês,
Stella Maris Rezende
LAM - Você é autora de dezenas de livros (um total de 40,
acredito), tem experiências como atriz e é apaixonada pelo teatro e o cinema.
Vamos então para a pergunta de praxe: como e quando se deu seu encontro com a
arte?
A partir do segundo semestre de 2026, serão
60 livros publicados. Sempre fui apaixonada por contar histórias, e desde
pequenininha, gostava de reunir meus irmãos mais novos e vizinhos, para
inventar uma história na hora. Eu fazia questão de não saber o que iria contar,
era uma grande alegria dar conta de inventar no instante em que olhava para a
plateia! Fazia pausas. Olhava atentamente para cada pessoa. E as palavras iam
chegando, o enredo se apresentava, a plateia se entusiasmava quando eu fazia
uma pausa demorada, antes de contar o final da trama. Aos 8 anos, a professora
pediu que escrevêssemos uma composição durante a aula. Naquele tempo se dizia
composição, palavra que considero mais bonita que redação. Desembestei a
escrever e a história atingiu quase 20 páginas! Ao devolver as composições, dona
Marlene fez vários comentários. Para um dos colegas ela disse que ele havia
repetido umas palavras que não soaram bem, criaram um som desagradável –
aprendi depois que se tratava de um cacófato -, e esse detalhe da sonoridade me
tocou fundo, pois eu já sentia que um bom texto tem ritmo, som e musicalidade
emocionantes. Ao devolver a minha composição, dona Marlene, sempre séria e
sisuda, disse: Você vai ser escritora. Falou de um jeito tão dramático que eu
pensei que ser escritora seria uma coisa horrível. Dona Marlene virava outra
pessoa, uma espécie de fada com um livro na mão, quando lia em voz alta para
nós. Era uma leitura encantadora. Isso também me tocou profundamente.
LAM – Quais influências da infância e adolescência foram
marcantes para a sua formação como escritora e apaixonada pelas artes?
Além de dona Marlene, houve dois professores do Ensino
Médio que me influenciaram muito, ao me emprestar ou indicar livros, ao me
chamar de poeta ou filósofa: Professor Bento (que depois se misturou ao
Bentinho de Dom Casmurro, que maravilha!), dona Nívea (que dizia ser importante
aprender a norma culta, a gramática, para depois desobedecê-las com arte). Minha
avó paterna, dona Chiquinha, inventava palavras e isso me atiçou a inventar
também. Para ela, a avenida Afonso Pena em Belo Horizonte era a avenida Sanfona
Pena. Minha mãe era uma contadora de histórias adorável, atiçava a minha
imaginação, além de desenhar na primeira página dos meus cadernos, cantar
maviosamente, bordar, tricotar, costurar e cozinhar, tudo com arte caprichada,
e tudo isso se coaduna com o meu projeto estético.
LAM – Quem veio primeiro: a escritora ou a atriz?
Vieram juntas, mas a escritora sempre esteve e continua
estando em primeiro lugar.
LAM – Você é detentora de vários prêmios literários,
incluindo o Jabuti, pela obra A mocinha do Mercado Central, que,
inclusive, foi tema de duas dissertações de mestrado, Pelas veredas de
Stella Maris Rezende: um olhar para A mocinha do Mercado Central (UERJ,
2023), pesquisa da Sol Marins Cortez de Mendonça, e o Espaço e identidade:
em a Mocinha do Mercado Central de Stella Maris Rezende, (UFG, 2015),
pesquisa de Lilian Rosa Aires Carneiro, afora o artigo A representação
feminina na literatura juvenil contemporânea: voz e protagonismo em A
mocinha do Mercado Central, publicado na Seção Tema Livre da Revista de
Estudos Brasileiros Contemporâneos (2025), escrito por Angelita Cristina de
Moraes e Ana Paula Franco Nobile Brandileone. Conta pra gente sobre essa obra,
o prêmio e das pesquisas realizadas.
Como sempre, não planejo o que vou contar. Jogo uma frase
ou outra e a história vem vindo aos poucos. Escrevi e reescrevi A Mocinha
do Mercado Central por volta de 8 anos, me divertindo demais com os rumos
que o enredo ia tomando. A protagonista gostava de mudar de nomes, viajava para
diversas cidades do Brasil e assumia em cada cidade um nome diferente, agia e
reagia de acordo com o significado do nome e isso era uma aventura que eu
vivia, escrever é se aventurar e viajar. Enquanto escrevo, faço questão de me
sentir leitora. O livro foi publicado em 2011, mas já em 2008 havia recebido o
Prêmio João de Barro para textos inéditos. Em 2012, recebeu o Prêmio Jabuti de
Melhor Livro para Jovens e o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Foi a
primeira vez que um romance juvenil ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Ficção
do Ano. Além disso, eu estava com outro livro classificado entre os 10
finalistas, A guardiã dos segredos de família, que ganhou o segundo
lugar do Jabuti na categoria de Melhor Livro para Jovens. Ou seja, numa mesma
noite, ganhei 3 Jabutis! No processo de escrita de A Mocinha do Mercado
Central, pesquisei sobre significados de nomes, e Maria Campos, a
personagem principal, é apaixonada por teatro. Como disse Graciliano Ramos, “as
nossas personagens são pedaços de nós mesmos”.
LAM - A sua trilogia para adolescentes que inclui a já mencionada
A mocinha do Mercado Central (2011) e mais A sobrinha do poeta (2012) e
As gêmeas da família (2013), que foram tratadas na dissertação de mestrado
sob a temática A casa e a biblioteca: espaços afetivos regidos pela mulher
em obras de Stella Maris Rezende (UEG, 2020), de Julya Costa Siqueira. Qual
a proposta dessa trilogia?
Não planejei a trilogia. Ela se consolidou à medida em
que eu escrevia, e a presença de uma biblioteca nos três enredos acabou se
tornando um fio condutor relevante. Não houve uma proposta premeditada.
Aconteceu, certamente devido à paixão por bibliotecas. As histórias desses três
livros possuem personagens envolvidas com livros e aventuras emocionantes.
LAM – Entre as suas obras, uma outra foi alvo de
pesquisa: Primeira leitura do evangelho de Stella Maris Rezende aos jovens
brasileiros: análise inicial do livro Justamente porque sonhávamos (Revista
Temática, 2019), derivada de artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de
Curso ao Curso de Pós-Graduação (lato sensu) em Linguística e Formação de
Leitores da Faculdade de Tecnologia Álvares de Azevedo (FAATESP), de João Paulo
Hergesel. Fala pra gente como foi o processo de criação e as expectativas com
essa obra.
Eu não sabia dessa pesquisa! Obrigada por me contar.
Justamente porque sonhávamos é um longo romance em que há um grande
mistério numa pequena cidade de Minas. Lá o tempo parou. Todos vivem como se o
Brasil ainda estivesse sob a ditadura militar instaurada na década de 1960.
Também não foi planejado, como todos os meus livros. O mais interessante neste é
que de certa forma ele retrata os tempos atuais em que há no mundo inteiro uma
tendência ao retrocesso, a uma negação da História e da Ciência, além de
perseguição aos que defendem os direitos humanos e lutam por mais igualdade
social. É um romance que por meio de uma prosa poética e muitas aventuras
juvenis, provoca reflexões sobre política, machismo, feminismo, prisões,
liberdade, medo e coragem.
LAM – O que é a Fada da Palavra e qual a proposta da Oficina
Letras Mágicas?
Quando participei do programa Carrossel na antiga TV
Manchete em Brasília, interpretei a Fada Estrelazul que lia histórias para
crianças e jovens. Eu mesma propus a personagem à produção do programa. Disse
que ele era bom, divertia o público, mas que faltava um quadro que incentivasse
a leitura literária. Argumentei bastante e fui convidada a criar a personagem.
Fada Estrelazul se tornou famosa no programa, ao ter livros nas mãos e ler
histórias diante das câmeras. Muitos anos se passaram e a publicação de livros
se tornou prioritária. Com o advento de novas realidades tecnológicas, criei a
Fada das Palavras, um canal no Youtube em que leio trechos de minha autoria e
de várias escritoras e escritores que admiro, indico livros, converso com
profissionais da educação, ou seja, exercito a minha paixão pelas palavras e as
entrelinhas diante de uma câmera.
A Oficina Letras Mágicas incentiva a leitura literária e
a escrita criativa em feiras de livros, congressos e encontros literários.
Confira a Fada das Palavras e a Oficina Letras Mágicas aqui.
LAM – Fala um pouco sobre sua experiência como atriz e da
sua paixão pelo teatro e o cinema.
Desde pequenininha, tenho paixão pelo palco e pela
interpretação de personagens. Gosto de me sentir outra pessoa, brinco, modulo
frases, entonações, crio espaços, tudo com a intenção de emocionar, encantar e
provocar perguntas. Para mim, as dúvidas e as perguntas são os elementos
principais para a conscientização de que a condição humana é extremamente
complexa. “A arte existe porque a vida não basta”, disse o poeta Ferreira
Gullar. A arte é libertadora e transformadora. O cinema trabalha com imagens
que também emocionam e atiçam indagações. O autor da orelha de A Mocinha do
Mercado Central escreveu que o livro é praticamente um roteiro pronto para
o cinema. O grande ator e diretor de cinema Selton Mello escreveu um lindo prefácio,
depois de ler os originais. Disse que o romance daria um bom filme. Alguns dos
meus livros já viraram peças de teatro e atualmente um deles está sendo adaptado
para um curta metragem em que serei a narradora.
LAM – Você lançou recentemente A filha injustiçada
(Farias & Silva, 2026). Fala pra gente do que trata este seu novo trabalho
e quais as suas expectativas a respeito.
A filha injustiçada tem como voz narradora uma mulher que foi submissa ao
marido durante um longo tempo. Ela é a mãe de Maria da Soledade, jovem de 15
anos, que foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena em Minas
Gerais. A história se passa no início da década de 1970, em plena ditadura
militar, quando os horrores do hospital psiquiátrico, fundado em 1903, se
tornaram ainda mais desumanos e aniquiladores. Me inspirei numa fala da minha
tia Jovelina, que contava sobre uma menina de Dores do Indaiá – minha terra - que
foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena. Trata-se de uma ficção
que tem como base uma realidade cruel. O Hospital Colônia foi finalmente
fechado neste ano em que lanço o livro, mas infelizmente ainda existem mulheres
que são levadas à força para clínicas psiquiátricas, simplesmente por serem mulheres,
mulheres que não desistem de sonhar, questionar e viver uma vida mais livre e
mais feliz. Meu grande sonho atual é que esse livro seja lido por jovens,
mulheres e homens, para provocar reflexões sobre feminicídio, racismo,
hipocrisia, machismo, falta de consciência política, egoísmo e desumanização.
LAM – Desde a publicação do seu primeiro livro Dentro
das lamparinas (Horizonte, 1979), lá se vão quase 50 anos de trajetória.
Quais projetos você tem por perspectiva de realizar?
Tenho 4 livros que serão lançados ainda em 2026 e início
de 2027. Meus projetos continuam sendo o de ler muito e escrever muito, viajar
para outras cidades e outros países, propor que os meus livros estejam em mais
e mais livrarias, casas, bibliotecas e escolas. Participar de feiras literárias
e encontros com leitores de quaisquer idades. Em primeiro lugar, trabalhar com
as palavras e os silêncios, sempre em busca de boa qualidade literária. Fazer
arte.
Confira o sítio da autora aqui. E mais dela
aqui, aqui & aqui.
Confira aqui.
RICARDO
AIDAR - Ricardo Bertacin Aidar é engenheiro
civil formado pela FAAP, em 1973, frequentou aulas de desenho e pintura em tela
com a artista plástica Tereza Nazar, no período de 1962/65. Entre 1969/71
cursou fotografia na Enfoco. De 1978/81 e 2007/2011 fez cursos de joalheria no
Ateliê Renato Camargo. Participou em 2022 do curso Encontro com a Arte, na USP,
quando passou a integrar o Gentamiga Ateliê (SP). Ele participou com suas obras
da publicação Dareladas (CriaArt, 2024), tem trabalhos publicados no
zineblog Tataritaritatá e participa da plataforma Ubqub (SP).
LAM - Ricardo, vamos pra pergunta de
praxe: quando e como se deu seu encontro com a arte?
Foi na 2ª Bienal de São Paulo, 1953 – 1954,
eu tinha 5 anos e fui com meus pais visitar a exposição! Já fiquei
impressionado pela estrutura externa e interna do prédio, espetacular! Mas o
maior impacto foi quando fiquei em frente ao quadro genial, Guernica, de Pablo
Picasso, neste momento a arte entranhou-se na minha vida para sempre e assim
continuarei.
LAM - Quais as influências marcantes da
infância e adolescência definiram sua formação para as artes?
Minha mãe sempre me incentivou a desenhar,
desde que aprendi a segurar um lápis não parei mais de desenhar, ensinando
também cerâmica pintura em porcelana, decoração de interiores, arranjos florais
e estética.
Dos 11 aos 13 anos, fiz um curso no ateliê
da artista argentina, Tereza Nazar e do escultor grego Nicolas Vlavianos,
aprimorando pintura a óleo em várias técnicas.
LAM - Você também é engenheiro civil. Conta
pra gente como se deu a sua formação para atuar nessa área.
Por influência de pai engenheiro civil e
avô materno engenheiro elétrico, e pelo fato de a profissão me agradar, fiz
engenharia civil, formado pela FAAP em 1973.
Como me atraia muito a Arquitetura, virei
um arquiteto pelo convívio com um grupo de amigos formados em 1974 pela USP.
LAM - Você fez diversos cursos na área
artística, incluindo cursos de Fotografia, Joalharia, entre outros. Como você
avalia a experiência de realização desses cursos para sua formação
profissional?
Sim, a fotografia já era uma constante e
por sugestão do fotógrafo Hilton Ribeiro, irmão de minha mulher, fiz o curso de
fotografia na escola ENFOCO, fazendo em casa um laboratório para revelação de
fotos.
LAM - Quais as contribuições advindas
dos cursos de desenho e pintura para a sua formação profissional?
Foram decisivas para que atualmente eu
tenha segurança, e felicidade de ter atingido, seguido a rota que me leva a
meta que desejo atingir.
LAM - Como foi a sua experiência no
curso Conversa de Artes da USP?
Foi decisiva, pois além do curso ser
excelente, conheci e fiz amizade com artistas durante a pandemia todas as semanas,
trocando ideias e produzindo muito e de ter o prazer de trabalharmos juntos,
sempre aprendendo e nos divertindo muito e prazeroso.
LAM - Você integra o grupo Atelier
Gentamiga. Como você avalia as experiências realizadas neste grupo?
Nos encontros semanais continuamos juntos,
desde o final do Curso da USP, isto me alegra profundamente, pois trocamos
ideias, técnicas e muita produção e nos divertimos muito!
LAM - Você participou com suas obras da
publicação Dareladas. Como foi participar deste projeto e a experiência com a
obra de Darel Valença Lins?
Foi excelente, um artista que eu pouco
conhecia, e com a contribuição do famoso integrante Luiz Alberto Machado, o LAM,
tivemos a oportunidade de fazer um ótimo trabalho conjunto.
LAM - Você realizou recentemente uma
exposição de suas obras no Espaço RGAOBE - Arte Ofício e Bem Estar, em São
Paulo. Conta pra gente como se deu esta experiência.
Fiquei muito feliz por saber que causou um
impacto positivo e perceber que sendo a primeira vez que exponho meus
trabalhos, estou no rumo certo.
LAM - Quais as suas perspectivas com
relação a realização de projeto artísticos pro futuro?
Sendo já aposentado na engenharia e com 77
anos, o que desejo é continuar e aprimorar o trabalho artístico.
Veja mais de Ricardo Aidar aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Cibele Sarkis Carneiro é artista visual de Ribeiro Preto (SP) e atua como professora de Artes
em diversas escolas da rede pública e privada. É graduada em Educação Artística
pela Unaerp (1983) e em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela USP (2021).
É pós-graduada em Artes pela Unesp (2012). É integrante do Gentamiga Ateliê
(SP) e participa da plataforma Ubqub (SP). Sua arte transita pela gravura em
metal, fotografia, restauração e conservação. Ela participou com seus trabalhos
da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e tem trabalhos publicados no zineblog
Tataritaritatá.
LAM - Cibele, vamos pra pergunta de praxe: quando e como se deu seu encontro
com a arte?
Eu não encontrei a
arte — ela já estava em mim.
LAM - Quais
influências marcantes da infância e adolescência definiram sua formação para as
artes?
Tive influências
de várias pessoas: uma prima, minha professora, minha mãe e também do meu
próprio jeito de ser. Desde cedo, eu não me contentava com o comum, sempre
buscava ir além.
LAM - Você também
é professora. Conta pra gente como se deu a sua formação e atividades
pedagógicas na área de Educação Artística?
Dos quatro filhos
dos meus pais, eu era a única que sabia exatamente o que queria: ser artista.
Fui fazer o curso de Arte em uma faculdade em Ribeirão Preto. No primeiro ano,
levei tudo de forma mais leve, até que, com um incentivo mais firme da minha
mãe, entrei nos trilhos. Levei comigo uma frase de um amigo: “na faculdade,
você aprende nos corredores”. Isso me fez perceber que, para desenvolver
atividades pedagógicas, era essencial estar atenta ao entorno, às propostas da
escola e, principalmente, aos alunos. Tanto que uma mesma proposta, aplicada na
mesma série, sempre gerava resultados diferentes — e isso é o mais rico do
processo.
4. Como você
avalia o ensino de Artes na educação formal brasileira?
Infelizmente, não
vejo com bons olhos. Muitos educadores ainda não permitem que os alunos fluam
com suas ideias. Sei que não é fácil — salas lotadas, falta de material,
ausência de espaços adequados — mas ainda existe a visão equivocada de que a
arte serve apenas para “decorar a escola” em datas comemorativas.
5. Você cursou
Biblioteconomia. Conta pra gente como se deu essa escolha e a importância dos
livros e da biblioteca na formação humana.
Foi uma escolha
depois da minha aposentadoria. Eu não queria ficar parada em casa — era a “avó
da turma”, mas fui mesmo assim. Foi um curso desafiador, porque, como artista
(ou “arteira”), não sou muito organizada, e a Biblioteconomia é bastante
estruturada. Ainda assim, fiquei fascinada. Passei a enxergar os livros e as
bibliotecas com outros olhos, percebendo a profundidade da área e as diversas
possibilidades profissionais. Embora eu não tenha atuado na área, o ambiente
que mais me encantou foi o museu.
6. Você também
cursou Fotografia. Relate suas experiências nessa área.
Uma professora de
música da faculdade ficou encantada com minhas fotos, e foi a partir disso que
comecei a valorizar mais meu olhar fotográfico. Enquadramento, luz, formas,
paisagens e pessoas sempre marcaram — e ainda marcam — meus cliques. Captar um
momento, deixá-lo estático e, ao mesmo tempo, provocar o observador a dar
movimento a ele… isso é fascinante.
7. Como foi sua
experiência no curso Conversa de Artes da USP?
Marcante.
8. Você integra o
grupo Atelier Gentamiga. Como avalia essa experiência?
Somos um grupo
leve, de bem com a vida. Cada um trabalha no seu ritmo, sem cobranças. Cada
artista tem sua forma de expressão, e o respeito entre nós é o que sustenta
tudo.
9. Você participou
com suas obras da publicação Dareladas. Como foi essa experiência e o contato
com a obra de Darel Valença Lins?
Darel apareceu na
minha vida por sua causa. Ao conhecer sua trajetória, fiquei muito tocada.
Participar do projeto foi especial — em alguns momentos, me senti um pouco
Darel.
10. Quais são suas
perspectivas para projetos artísticos futuros?
Nenhuma
específica. Eu deixo a vida me levar.