MANTO
O que pode um manto?
À serventia de um corpo
Vai cumprindo sua missão
Adere à pele
Toma-se de significados
Quando visível
Esconde mistérios
Revela poderes
Destaca o sagrado
Quando invisível
Quem o carrega
Carrega também o peso
De duras construções
O que pode um manto?
Assim, criado
Protege ou mantém
Lugares de opressão?
ÚTERO
Invólucro sagrado
Gerador de vidas
Umas ansiadas
Outras aturdidas
Signatário do materno
Símbolo mulher
Ora falho
Ora belo
Bem ou malmequer
De ciclos em ciclos
Sangra pra gerar
Gera pra parir
Pílulas
Ligadura
Histerectomia
Pura ironia
Controle do mundo
Cortando a raiz…
CASA
Arrumou a
casa
Sendo a
que habita
Mobília
lustrada se via
Arejadas
áreas e alma
Em tranças
de energia
Arrumou a
casa
Sendo o
teu corpo
Pele
banhada sentia
Dedos,
cheiros e toques
Energia
que arrepia
Arrumou a
casa
Sendo o
teu mundo
Natureza
em harmonia
Misturando
os elementos
Reciclando
alegria
Mas…
Nem sempre
arrumou
Nem sempre
lustrou
Nem sempre
banhou
Nem sempre
tocou
Nem sempre
harmonizou
Porque…
Nem sempre
morou
Nem sempre
se olhou
Nem sempre
se achou
Nem sempre
sorriu
Às vezes
chorou
MANTO MULHER
Recebi alguns mantos da vida
Que se incumbiram de me fazer mulher
Uns, enlaçados em fios de proteção
Outros, treliçados, amarrando minhas mãos
Mãos desatadas no desejo revelado
Desnudam-me lentamente
A pele sensível não mente
Ao retirar cada manto
Encontrei minha originalidade escondida
A espontaneidade pra vida
Agora, embalada
pelo canto
Pássaros livres que se alimentam em meu ombro…
NEM PESOS, NEM MEDIDAS
Não
quero mais nada pesando em meus ombros
Não
quero ter que me comportar
Não
quero ter que me calar
Não
quero ter que me responsabilizar
Não
quero ter que cuidar
Não
quero pesos
Nem
medidas
Nem
explicações desconexas
Quero
chuva em meus cabelos
Cara
lavada e boca destravada
Ombros
desnudos como asas
Horizonte
como destino
E na
estrada
Pés
descalços para me lembrar:
Sempre
há pedras ao caminhar
DEVASTAÇÃO
Corre ligeira
Nem sempre faceira
Mas com ar de feiticeira
Que tem sempre um jeito a dar
Corre cantos
Chora prantos
Estoura feridas
Prestes a curar
Corre doida
De alma doída
Fama de mulher
Jeito de menina
Corre a mão
Esconde a devastação
Segue o dia
E não disse não
MEU ESCUDO
Chego
devagarinho
Cheiro
de encantamento
Pisando
faço caminho
Silêncio
é ensinamento
No
jogo sagrado
Revelações
de mim
Nada
ao acaso
Dores
fincadas no sim
Na
voz do mestre xará
Pela
primeira vez escuto
Omolu
é meu orixá
Palhas
fazendo escudo
Em
face de jovem
Já
corpo de velha
Sob
manto sagrado
Guardiã
de mistérios
EU TÔ BEM
Dizer
que tá bem sem tá
É moer
a própria carne
Para
alimentar em si
O
desconforto de tolher
Dentre
tantas coisas
Aquelas
indizíveis
Dizer
que tá bem sem tá
É
contrariar a própria natureza
Que
anseia por fluir
Entre
caminhos livres
Mas
que se esbarra
Em
pau, pedra ou fim do caminho
Dizer
que tá bem sem tá
É
reter o que se extravia
No
esforço de blindar a dor
Deve
haver um jeito
De
seguir sem medo
Ou
apenas dizendo: não tô!
MANSIDÃO E ABRASIVA
Fui
chão, abrigo e calor
Mar
aberto e amargor
Guerrilheira
em fogo cruzado
Contradição
amor
Atleta
inerte do tempo
Dignidade
ao vento
Confundida
com trabalho
Luta e
movimento
Me
trancei em fantasias
Lançada
em alegrias
Olhos
brilhos margeados
Corpóreas
agonias
Querendo
ser brisa
Memórias
alusivas
Um
sentir disparatado
Mansidão
e abrasiva
FEITO PIPOCA
Se as
dores que me fazem quem sou
Pudessem
pular feito pipoca
Não
esperaria anoitecer
E
enfeitava minha “paioça”
Bordaria
um manto de palha
Só
para fiar minhas manhas
E de
manhã, cedinho
Passado
o efeito do vinho
Meu
corpo desnudo marcado
Comemoraria
sem devoção
Das
feridas à renovação
MANTO MULHER – Manto Mulher é
um livro da poeta Carmen Camuso, que reúne 48 poemas agrupados em dois
capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. No primeiro capítulo, os poemas expressam a
relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis
sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação
mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. A proposta é de
versos livres, com temáticas que aludem o cotidiano, revelando a escrita como
lugar de expressão e travessia. A autora é mãe, avó, feminista, psicóloga,
mestre em Ciências da Saúde e servidora pública do Estado da Bahia. Na pandemia
da Covid-19, mediou um grupo de escrita terapêutica. Hoje, integra o Movimento
Cultural Alvorecer, atuando como agente cultural na produção de eventos e na
organização de antologias poéticas, como a Antologia Alvorecer Pétalas e
Lâminas. Veja mais aqui.












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