domingo, abril 19, 2026

A ARTE DE CIBELE SARKIS CARNEIRO

 

Cibele Sarkis Carneiro é artista visual de Ribeiro Preto (SP) e atua como professora de Artes em diversas escolas da rede pública e privada. É graduada em Educação Artística pela Unaerp (1983) e em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela USP (2021). É pós-graduada em Artes pela Unesp (2012). É integrante do Gentamiga Ateliê (SP) e participa da plataforma Ubqub (SP). Sua arte transita pela gravura em metal, fotografia, restauração e conservação. Ela participou com seus trabalhos da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e tem trabalhos publicados no zineblog Tataritaritatá.

 

LAM - Cibele, vamos pra pergunta de praxe: quando e como se deu seu encontro com a arte?

 

Eu não encontrei a arte — ela já estava em mim.

 

LAM - Quais influências marcantes da infância e adolescência definiram sua formação para as artes?

 

Tive influências de várias pessoas: uma prima, minha professora, minha mãe e também do meu próprio jeito de ser. Desde cedo, eu não me contentava com o comum, sempre buscava ir além.

 

LAM - Você também é professora. Conta pra gente como se deu a sua formação e atividades pedagógicas na área de Educação Artística?

 

Dos quatro filhos dos meus pais, eu era a única que sabia exatamente o que queria: ser artista. Fui fazer o curso de Arte em uma faculdade em Ribeirão Preto. No primeiro ano, levei tudo de forma mais leve, até que, com um incentivo mais firme da minha mãe, entrei nos trilhos. Levei comigo uma frase de um amigo: “na faculdade, você aprende nos corredores”. Isso me fez perceber que, para desenvolver atividades pedagógicas, era essencial estar atenta ao entorno, às propostas da escola e, principalmente, aos alunos. Tanto que uma mesma proposta, aplicada na mesma série, sempre gerava resultados diferentes — e isso é o mais rico do processo.

 

4. Como você avalia o ensino de Artes na educação formal brasileira?

 

Infelizmente, não vejo com bons olhos. Muitos educadores ainda não permitem que os alunos fluam com suas ideias. Sei que não é fácil — salas lotadas, falta de material, ausência de espaços adequados — mas ainda existe a visão equivocada de que a arte serve apenas para “decorar a escola” em datas comemorativas.

 

5. Você cursou Biblioteconomia. Conta pra gente como se deu essa escolha e a importância dos livros e da biblioteca na formação humana.

 

Foi uma escolha depois da minha aposentadoria. Eu não queria ficar parada em casa — era a “avó da turma”, mas fui mesmo assim. Foi um curso desafiador, porque, como artista (ou “arteira”), não sou muito organizada, e a Biblioteconomia é bastante estruturada. Ainda assim, fiquei fascinada. Passei a enxergar os livros e as bibliotecas com outros olhos, percebendo a profundidade da área e as diversas possibilidades profissionais. Embora eu não tenha atuado na área, o ambiente que mais me encantou foi o museu.

 

6. Você também cursou Fotografia. Relate suas experiências nessa área.

 

Uma professora de música da faculdade ficou encantada com minhas fotos, e foi a partir disso que comecei a valorizar mais meu olhar fotográfico. Enquadramento, luz, formas, paisagens e pessoas sempre marcaram — e ainda marcam — meus cliques. Captar um momento, deixá-lo estático e, ao mesmo tempo, provocar o observador a dar movimento a ele… isso é fascinante.

 

7. Como foi sua experiência no curso Conversa de Artes da USP?

 

Marcante.

 

8. Você integra o grupo Atelier Gentamiga. Como avalia essa experiência?

 

Somos um grupo leve, de bem com a vida. Cada um trabalha no seu ritmo, sem cobranças. Cada artista tem sua forma de expressão, e o respeito entre nós é o que sustenta tudo.

 

9. Você participou com suas obras da publicação Dareladas. Como foi essa experiência e o contato com a obra de Darel Valença Lins?

 

Darel apareceu na minha vida por sua causa. Ao conhecer sua trajetória, fiquei muito tocada. Participar do projeto foi especial — em alguns momentos, me senti um pouco Darel.

 

10. Quais são suas perspectivas para projetos artísticos futuros?

 

Nenhuma específica. Eu deixo a vida me levar.

 

Verja a arte de Cibele Sarkis Carneiro aqui.



sábado, março 28, 2026

MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

 

 

MANTO

 

O que pode um manto?

À serventia de um corpo

Vai cumprindo sua missão

Adere à pele

Toma-se de significados

 

Quando visível

Esconde mistérios

Revela poderes

Destaca o sagrado

 

Quando invisível

Quem o carrega

Carrega também o peso

De duras construções

 

O que pode um manto?

Assim, criado

Protege ou mantém

Lugares de opressão?

 

ÚTERO

 

Invólucro sagrado

Gerador de vidas

Umas ansiadas

Outras aturdidas

Signatário do materno

Símbolo mulher

Ora falho

Ora belo

Bem ou malmequer

 

De ciclos em ciclos

Sangra pra gerar

Gera pra parir

Pílulas

Ligadura

Histerectomia

Pura ironia

Controle do mundo

Cortando a raiz…

 

CASA

 

Arrumou a casa

Sendo a que habita

Mobília lustrada se via

Arejadas áreas e alma

Em tranças de energia

 

Arrumou a casa

Sendo o teu corpo

Pele banhada sentia

Dedos, cheiros e toques

Energia que arrepia

 

Arrumou a casa

Sendo o teu mundo

Natureza em harmonia

Misturando os elementos

Reciclando alegria

 

Mas…

Nem sempre arrumou

Nem sempre lustrou

Nem sempre banhou

Nem sempre tocou

Nem sempre harmonizou

Porque…

Nem sempre morou

Nem sempre se olhou

Nem sempre se achou

Nem sempre sorriu

Às vezes chorou

 

MANTO MULHER

 

Recebi alguns mantos da vida

Que se incumbiram de me fazer mulher

Uns, enlaçados em fios de proteção

Outros, treliçados, amarrando minhas mãos

Mãos desatadas no desejo revelado

Desnudam-me lentamente

A pele sensível não mente

Ao retirar cada manto

Encontrei minha originalidade escondida

A espontaneidade pra vida

Agora, embalada pelo canto

Pássaros livres que se alimentam em meu ombro…

 

NEM PESOS, NEM MEDIDAS

 

Não quero mais nada pesando em meus ombros

Não quero ter que me comportar

Não quero ter que me calar

Não quero ter que me responsabilizar

Não quero ter que cuidar

Não quero pesos

Nem medidas

Nem explicações desconexas

Quero chuva em meus cabelos

Cara lavada e boca destravada

Ombros desnudos como asas

Horizonte como destino

E na estrada

Pés descalços para me lembrar:

Sempre há pedras ao caminhar

 

DEVASTAÇÃO

 

Corre ligeira

Nem sempre faceira

Mas com ar de feiticeira

Que tem sempre um jeito a dar

 

Corre cantos

Chora prantos

Estoura feridas

Prestes a curar

 

Corre doida

De alma doída

Fama de mulher

Jeito de menina

 

Corre a mão

Esconde a devastação

Segue o dia

E não disse não

 

MEU ESCUDO

 

Chego devagarinho

Cheiro de encantamento

Pisando faço caminho

Silêncio é ensinamento

 

No jogo sagrado

Revelações de mim

Nada ao acaso

Dores fincadas no sim

 

Na voz do mestre xará

Pela primeira vez escuto

Omolu é meu orixá

Palhas fazendo escudo

 

Em face de jovem

Já corpo de velha

Sob manto sagrado

Guardiã de mistérios

 

EU TÔ BEM

 

Dizer que tá bem sem tá

É moer a própria carne

Para alimentar em si

O desconforto de tolher

Dentre tantas coisas

Aquelas indizíveis

 

Dizer que tá bem sem tá

É contrariar a própria natureza

Que anseia por fluir

Entre caminhos livres

Mas que se esbarra

Em pau, pedra ou fim do caminho

 

Dizer que tá bem sem tá

É reter o que se extravia

No esforço de blindar a dor

Deve haver um jeito

De seguir sem medo

Ou apenas dizendo: não tô!

 

MANSIDÃO E ABRASIVA

 

Fui chão, abrigo e calor

Mar aberto e amargor

Guerrilheira em fogo cruzado

Contradição amor

 

Atleta inerte do tempo

Dignidade ao vento

Confundida com trabalho

Luta e movimento

 

Me trancei em fantasias

Lançada em alegrias

Olhos brilhos margeados

Corpóreas agonias

 

Querendo ser brisa

Memórias alusivas

Um sentir disparatado

Mansidão e abrasiva

 

FEITO PIPOCA

 

Se as dores que me fazem quem sou

Pudessem pular feito pipoca

Não esperaria anoitecer

E enfeitava minha “paioça”

Bordaria um manto de palha

Só para fiar minhas manhas

E de manhã, cedinho

Passado o efeito do vinho

Meu corpo desnudo marcado

Comemoraria sem devoção

Das feridas à renovação

 

MANTO MULHERManto Mulher é um livro da poeta Carmen Camuso, que reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. No primeiro capítulo, os poemas expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. A proposta é de versos livres, com temáticas que aludem o cotidiano, revelando a escrita como lugar de expressão e travessia. A autora é mãe, avó, feminista, psicóloga, mestre em Ciências da Saúde e servidora pública do Estado da Bahia. Na pandemia da Covid-19, mediou um grupo de escrita terapêutica. Hoje, integra o Movimento Cultural Alvorecer, atuando como agente cultural na produção de eventos e na organização de antologias poéticas, como a Antologia Alvorecer Pétalas e Lâminas. Veja mais aqui.


 


sábado, fevereiro 28, 2026

VOU CONTAR ATÉ 100, JAQUE MONTEIRO

 

 

VOU CONTAR ATÉ 100 – (SINOPSE): procure nas entrelinhas, não é um livro de contos comum, é um livro com 100 microcontos, onde, imagine só, 100 textos estão escritos com até 100 caracteres, contando-se os espaços! Isso mesmo, para aumentar o desafio, os espaços são contabilizados também. Os títulos dos microtextos não entram na contagem. Quanto ao restante, nenhum texto no livro ultrapassa 100 caracteres: dedicatória, epígrafe, prefácio, biografia da autora, agradecimento, apresentação e os contos. Capa, contracapa e orelhas seguem a proposta. Seus textos não passam de 100 caracteres. Há contos para todo gosto: impactantes, engraçados, fofos, misteriosos, enigmáticos e tantos outros. Aceite o desafio de desvendar os sentidos escondidos por detrás dos véus, jogados embaixo do tapete, costurados nas entrelinhas das páginas. São 100 microcontos concisos em letras e palavras, mas que dizem muito mais do que querem dizer, procure nas entrelinhas!

 


JAQUE MONTEIRO Jaque Monteiro é escritora, mãe livre atípica, arte-educadora e que nasceu e mora no cerrado do Planalto Central, Brasília, capital jovem senhora. É filha da diversidade da mãe mineira com pai baiano. Ela já participou de antologias de poemas, haicais, contos e setígonos. É autora de Estações de humor – Em clima de haicai; Pilar Tenoz – romance juvenil em fase de publicação, do I Oficina de Catadupas do Brasil (2025), que é um livro resultante da Oficina de apresentação da Catadupa, um novo gênero poético brasileiro; AS SETIGONISTAS ao quadrado, uma dança poética que se fez livro de poemas setígonos em coautoria com noi soul; SETÍGONO: o brasileirinho ousado – Ensaio: teoria, prática e poesia, um livro com ensaio e poemas sobre setígonos; e BorboLERtras, que é um projeto de valorização e incentivo da mulher na cena literária brasileira. Veja mais aqui & aqui.


 


domingo, fevereiro 08, 2026

DUO SETIGONISTA: JAQUE MONTEIRO & NOI SOUL

 

 

DUO SETIGONISTA (por Luiz Alberto Machado) - Estimadas poetas, minha saudação da plateia: tataritaritatá! Aceitei o convite José Paulo Paes de vocês: vamos brincar de poesia? E, como ousado Beatles, prontamente respondi: Vamos juntos agora mesmo! Come together! Louvo as setigonistas façanhudas na peleja de glosar o mote de Patativa: cante lá que eu canto cá! E assim jaque monteiro e noi soul subiram neste palco, afinaram a caixa dos peitos num poetar alternado e o que parecia ser uma quebra-de-braço, na verdade, era um pugilato diferente, livre para todos os públicos: cada qual o seu ponteio, cada uma com seu recado e numa toada própria, coisa mais bonita de se ver. Pois, repinicaram sílabas feito goteira, palavras como foguetes e, a cada poema, a tenção levou tudo, refrão e estribilho, na prodigiosa verve dum mote de duas linhas pruma obra de sete pés. E botaram da boca pra fora e de goela adentro: acredite, Andorinha, quem canta renasce e hoje é um dia como outro qualquer. A cada um a sua lição. E se eu disser não, poesia viva! Nisso foram: quem pariu a si mesmo, quem se fez o próprio hino, quem decifrou ou devorou, quem poeira e o devir, criando momentos fora do tempo, porque a água emana do fogo e a vida é dança e agora. Assim, setilhas a fole e, sem pedir licença no trupé, desvelaram sentidos e jorraram a fonte de suas modulações poéticas por lampejos avassaladores, como exercício de amostras válidas: relevo surpreendente e que muito me apraz. Tudo no ponto: a mútua cantoria desafiando o mundo inteiro pra versar nesta função. Viva! Salve sacrossantíssima ginocracia! Mas, vamos aprumar a conversa: vou terminar meu breve rojão. Botei a viola emborcada no saco e, em reverência, fiquei só aplaudindo de pé. U-hu!


 

JAQUE MONTEIRO - Jaque Monteiro é escritora brasiliense, arte-educadora, gestora e coordenadora de projetos. Participante de antologias de poemas, haicais, contos e setígonos. Criadora dos estilos poéticos Catadupa e Gradativa. Estações de humor - Em clima de haicai. Pilar Tenoz - romance juvenil em fase de publicação. I Oficina de Catadupas do Brasil – 2025 – Livro resultante da Oficina de apresentação da Catadupa, um novo gênero poético brasileiro. As setigonistas ao quadrado - uma dança poética, livro de poemas setígonos em coautoria com noi soul. Setígono: o brasileirinho ousado – Ensaio: teoria, prática e poesia, livro com ensaio e poemas setígonos. Vou contar até 100 – procure nas entrelinhas, livro de microcontos. BorboLERtras – projeto de valorização e incentivo da mulher na cena literária brasileira. Ela é amante da palavra, viaja alhures na imaginação, flerta com a fotografia, adora contar e ouvir histórias-estórias. Ela diz: Quem canta, seus males espanta. Quem dança, manda-os embora de vez Quem embala poesia, transcende! Prazer em nos conhecermos!

 


NOI SOUL - noi soul: com os sentidos virados para o fascínio, voo com a missão de passarinho: poetizar a existência. noi soul (nome artístico de Noiane Souza) é natural de Vitória da Conquista/BA, formada em Nutrição pela UFBA, poetisa, escritora, designer e criadora de conteúdos digitais relacionados aos diversos temas pelos quais nutre interesse. É membro efetivo da Academia Conquistense de Letras, cadeira 29. Idealizadora do Canal Celéstyan Pulsão Poética; conduz o programa Poesia em Gota às segundas no Canal Tertúlias com VC para divulgação de poetas nacionais atuais; é parceira de Katiana Rigaud na gestão da Raiz Livraria. Participa de diversas Antologias de poemas e contos. Autora de livros de poemas, dos quais destaca o seu primeiro lançamento Ventre de mãe, Editora Versejar (2021) e o mais recente, Descompassos, pela editora Manufatura das Letras (2024). Possui livro-dueto com o escritor angolano Poeta Falso: Hematoma Social, disponível no Kindle e na UICLAP (2024). Noi acredita que a arte é nosso melhor caminho para pensarmos mudanças efetivas dentro e fora de nós.

 


SINOPSE: AS SETIGONISTAS ao quadrado uma dança poética, escrito por jaque monteiro e noi soul, é um livro de setígonos, um novo gênero poético brasileiro criado em Pernambuco (2020) por Admmauro Gommes, Cícero Felipe e José Durán y Durán.

O setígono possui sete versos, mas o curioso está na maneira como eles dialogam e se comportam, surpreendendo quem lê ao revelar, no mínimo, três poemetos que saltam de dentro de um único poema. Lembram as bonecas matrioscas: ao abrir cada camada, deslinda-se uma nova história

A forma como este projeto tomou corpo foi, de certo modo, inusitada. Cada uma das autoras tinha um conjunto original de setígonos. Surgiu então a ideia de se separar alguns poemas e reuni-los numa única obra. Assim nasceram 35 setígonos de cada autora, escolhidos sem qualquer combinação prévia. A organização dos pares as surpreenderam com a afinidade e a ressonância entre eles. Mais ainda: perceberam que os versos polares de cada dupla conversavam entre si — ora um lançava a pergunta, o outro oferecia a resposta; um revelava a ferida, o outro, a cura. E, quando vistos em conjunto, os quartetos se aproximavam, se tocavam e se completavam em sua totalidade.

O livro tem outros dedinhos especiais: Ana Luísa, com a arte-final da capa, que o veste com beleza e delicadeza; Mari Rima e Patuska, com prefácios que acolhem como um abraço e apresentam as autoras ao leitor com generosidade; Admmauro Gommes, Luiz Alberto (Nito) e José Durán y Durán, escrevem os posfácios que ressoam saber, afeto e companheirismo, são uma parte essencial da história e da continuidade do setígono.

A leitura convida você a desvendar os arcanos escondidos nos véus de cada linha e entrelinha dos poemas. Boa leitura!

 

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