JANILSON SALES – O professor, poeta e produtor
cultural, Janilson Sales desenvolve diversas atividades na área
pedagógica, a exemplo do projeto Museu do Homem do Campo, a Cordelteca e o
Cordeluna, entre outros, comprovando seu ativismo pedagógica na área do cordel,
além de ser integrante da Academia Palmarense de Letras (APLE), entre outras
ocupações nas áreas culturais e artísticas da Mata Sul pernambucana. Ele apresentou no XII Congresso Nacional de Educação (CONEDU) o estudo O
cordel no fazer pedagógico: estratégias lúdicas e alinhamento curricular nos
anos iniciais.
LAM - Você é professor, poeta e produtor
cultural. Então conta pra gente como se deu essa articulação para desenvolver
um projeto com o Lúdico & o Cordel em sala de aula!
Essa articulação nasceu naturalmente da minha
vivência como educador e amante da literatura popular. Sempre percebi que a
aprendizagem acontece de forma mais plena quando o aluno se sente envolvido,
motivado e feliz. O cordel, por sua musicalidade, criatividade e linguagem
próxima do povo, tornou-se uma ferramenta poderosa dentro da sala de aula. Já o
lúdico entra como ponte para despertar curiosidade e participação. Assim, fui
unindo jogos, contação de histórias, dramatizações e leitura de cordel para
tornar o ensino mais significativo e prazeroso.
LAM - Você estreou em livro com a publicação
do Cordel do Ginásio Municipal, em 1998. Como foi embarcar por esta área
e a receptividade do público?
Foi um momento muito especial, porque ali eu
percebi que podia transformar experiências e memórias em poesia popular.
Naquele ano, o Ginásio comemorava 50 anos de existência; portanto, era uma data
muito significativa para registrar em cordel. Publicar o primeiro cordel me deu
confiança para seguir escrevendo. A receptividade foi bastante positiva,
especialmente entre estudantes, professores e pessoas que se identificavam com
aquela narrativa simples e verdadeira. O carinho do público me incentivou a continuar
produzindo.
LAM - Você tem trabalhado em sala de aula
utilizando o cordel como material didático. Como é que se dá o desenvolvimento
dessas atividades?
O cordel é um recurso riquíssimo. Eu o
utilizo em atividades de leitura, interpretação textual, produção escrita,
oralidade e também no trabalho com temas históricos e sociais. Muitas vezes, os
alunos leem folhetos, produzem versos, ilustram capas e fazem apresentações de
recitais. Isso fortalece o gosto pela leitura e valoriza a cultura nordestina,
além de estimular a criatividade e elevar a autoestima dos estudantes.
LAM - Você tem desenvolvido ações como
palestras, oficinas e recreações pedagógicas que articulam o cordel na escola.
Conta pra gente como tem sido a receptividade dos alunos e participantes dessas
suas atividades.
A receptividade tem sido muito boa. Crianças,
jovens e educadores se encantam ao perceber que aprender pode ser algo leve e
divertido. Nas oficinas, os participantes descobrem que também podem criar seus
próprios versos. Já nas palestras e atividades recreativas, há sempre muita
interação. Isso mostra que o cordel continua vivo e dialogando com as novas
gerações.
LAM - Você realizou os projetos Cordeluna
e Balaio de Cordel. Em que consistem tais propostas?
São iniciativas voltadas à valorização da
leitura e da cultura popular. O Balaio de Cordel, por exemplo,
reúne poesia, oralidade, brincadeiras e apresentações literárias, aproximando o
público do universo do cordel — é o nome que criei para identificar as minhas
oficinas de cordel. Já o Cordeluna tem como proposta reunir os
cordelistas da região para um momento cultural. Este ano, por exemplo, no mês
de agosto, realizamos o encontro aqui em Palmares, em parceria com o Ginásio
Municipal, e reunimos poetas como Severino Pedro, de Bezerros; Aline Sales, de
Caruaru; Meca Moreno, de Recife; e os poetas da nossa cidade. Foi um momento
rico de troca e interação. Ambos têm como objetivo formar leitores e fortalecer
identidades culturais.
LAM - Este ano você participou do I Congresso
do Cordel, promovido pela Febracordel, em Recife. Fala pra gente como se deu
essa experiência.
Foi uma experiência verdadeiramente
enriquecedora. Participar de um congresso nacional dedicado ao cordel vai muito
além de simplesmente participar de um evento: significa encontrar, ouvir e
trocar ideias com pesquisadores, poetas, educadores e todos que amam e fazem
viver essa arte tão nossa. Além de todo o aprendizado compartilhado, é um
momento fundamental para fortalecer laços, construir redes de cultura e
perceber que o cordel não está parado: ele cresce, se renova e se afirma, cada
vez mais, como um valioso patrimônio literário, cultural e também pedagógico.
A proposta da FEBRACORDEL — lutar pela
salvaguarda do cordel, unindo academia e coletivos de todo o Brasil — é
essencial. Essa reunião nacional de cordelistas fortalece a arte em todas as
suas dimensões: preserva a tradição, valoriza os criadores, dá voz a novas
gerações e garante que o cordel continue vivo, percorrendo caminhos e
encantando pessoas em cada canto do nosso país.
Saí de lá ainda mais motivado e convicto: é
possível e necessário continuar esse trabalho, cuidando, difundindo e fazendo
florescer a poesia de cordel!
LAM - Quando conheci você já desenvolvia o
projeto do Museu do Homem do Campo que, posteriormente, transformou-se em Museu
do Camponês. A quantas anda este projeto?
Este projeto continua sendo uma das
iniciativas mais importantes da minha trajetória. Nasceu com o propósito de
preservar a memória do homem do campo — seus objetos, costumes, histórias e
saberes. Para enriquecer ainda mais esse acervo, o projeto vem recebendo
generosas doações de objetos ligados à vida no campo, o que reforça e amplia
seu papel fundamental como guardião e preservador da nossa história e da nossa
cultura. Atualmente, está abrigado na Escola Ranúzia Moreira, em Xexéu, onde
recebe escolas da cidade para visitas guiadas. Os próprios professores da
escola também integram o projeto às suas aulas de História e Cultura. Em
formato itinerante, já percorreu diversas escolas da Mata Sul pernambucana,
levando conhecimento e identidade cultural aos estudantes. Hoje, permanece como
uma proposta viva de educação patrimonial, valorização das raízes populares e
de manutenção da nossa memória coletiva.
LAM - Você desenvolveu o projeto Faz Bem
Ler. Quais os resultados obtidos com este projeto?
O principal resultado alcançado foi despertar
o verdadeiro prazer pela leitura. Muitos alunos que tinham pouca proximidade
com os livros passaram a frequentar mais as bibliotecas, a participar de rodas
de leitura e até a produzir seus próprios textos. O projeto também contribuiu
de forma significativa para o desenvolvimento da interpretação, da escrita e da
expressão oral. Ler realmente faz bem: amplia horizontes, enriquece o
pensamento e transforma vidas. Por isso, aproximo o lúdico da contação de
histórias, apresentando cada livro de maneira dinâmica e envolvente. Essa é a
nossa proposta: atrair a atenção para o livro, especialmente neste mundo tão
tomado pelas telas, mostrando que a leitura é uma experiência viva, encantadora
e indispensável.
LAM - Você tem participado de diversas
antologias literárias e já publicou os livros O dia em que choveu na terra
dos poetas (2010), Formosos Pés (2012) e Viver Livre (2014).
Como você define esta trajetória voltada para a poesia, notadamente com relação
à receptividade de seus alunos?
Vejo esta trajetória como um caminho
construído com persistência e, sobretudo, com amor à palavra. Cada livro — O
dia em que choveu na terra dos poetas (2010), Formosos Pés (2012) e Viver
Livre (2014) — representa uma etapa da minha caminhada, tanto humana quanto
literária. Quanto à receptividade dos alunos, isso sempre me emociona
profundamente. Muitos passam a perceber que alguém próximo deles, um professor
que faz parte da sua realidade, também escreve e publica. Isso desperta sonhos
e mostra que a literatura não está distante: está ao alcance de todos. O meu
mais recente lançamento é Jefté e o segredo da casa proibida, que
trata justamente da importância da leitura literária em sala de aula e do poder
transformador que a literatura exerce sobre cada pessoa e sobre toda a sociedade.
LAM - Você lançou recentemente o livro Jefté
e o segredo da casa proibida (Cord Ed, 2025), que tem por proposta utilizar
o lúdico nas leituras com a estudantada e o público em geral. Fala pra gente
como pretende desenvolver essas atividades.
A proposta central é transformar a leitura
numa experiência viva, interativa e envolvente, permeada de suspense,
imaginação e participação ativa de todos. Com Jefté e o segredo da casa
proibida, quero mostrar que o livro pode ser uma verdadeira aventura: não
apenas algo para ler, mas para viver junto. Para isso, pretendo desenvolver
encontros nas escolas, rodas de leitura compartilhada, dramatizações de trechos
da história, jogos pedagógicos ligados à narrativa e debates que convidem
crianças, jovens e adultos a mergulhar no universo literário. O objetivo é
despertar o prazer de ler, aproximando o público dos livros de forma leve,
criativa e significativa. Já tenho percorrido caminhos muito especiais na
divulgação desta obra: apresentei o livro na Escola da Usina Serro Azul e
também no Encontro de Escritores de Olinda. Nessas vivências, pude perceber o
quanto a obra permite uma exploração didática rica e profunda. Foi inspirado
nessa recepção que escrevi um artigo sobre a importância do lúdico no cordel,
que terei a honra de apresentar neste mês de outubro, durante o CONEDU, em
Campina Grande. É uma forma de compartilhar, também com educadores e pesquisadores,
essa experiência que une tradição, alegria e aprendizado.
Veja dele mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
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