sábado, julho 11, 2026

A FILHA INJUSTIÇADA, STELLA MARIS REZENDE & ENTREVISTA

 

 

STELLA MARIS REZENDE – É uma escritora mineira de Dores do Indaiá, premiada autora com dezenas de livros publicados, tanto para o público adulto, como o infantojuvenil. Ela é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília, participa de feiras literárias e ministra a oficina Letras Mágicas. É atriz e interpretou a Fada Estrelazul do programa Carrossel na TV Manchete e a tia Stella na TV Record. Já ganhou 4 Jabutis, entre eles o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano e o de Melhor Livro Juvenil para A mocinha do Mercado Central (2012), 3 Prêmios João-de-Barro (1986, 2002 e 2008), Prêmio APCA/Associação Paulista de Críticos de Arte (2013), Prêmio Brasília (2014), Barco a Vapor (2010), Bienal Nestlé (1988), Prêmio Seleção Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, e dezenas de selos de Altamente Recomendável da FNLIJ/Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2022, recebeu o Prêmio Hors Concours da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio por Alegria Pura em reedição.

Recentemente ela lançou o elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026), ocasião em que nos concede esta entrevista.

Com vocês, Stella Maris Rezende

 

LAM - Você é autora de dezenas de livros (um total de 40, acredito), tem experiências como atriz e é apaixonada pelo teatro e o cinema. Vamos então para a pergunta de praxe: como e quando se deu seu encontro com a arte?

 

A partir do segundo semestre de 2026, serão 60 livros publicados. Sempre fui apaixonada por contar histórias, e desde pequenininha, gostava de reunir meus irmãos mais novos e vizinhos, para inventar uma história na hora. Eu fazia questão de não saber o que iria contar, era uma grande alegria dar conta de inventar no instante em que olhava para a plateia! Fazia pausas. Olhava atentamente para cada pessoa. E as palavras iam chegando, o enredo se apresentava, a plateia se entusiasmava quando eu fazia uma pausa demorada, antes de contar o final da trama. Aos 8 anos, a professora pediu que escrevêssemos uma composição durante a aula. Naquele tempo se dizia composição, palavra que considero mais bonita que redação. Desembestei a escrever e a história atingiu quase 20 páginas! Ao devolver as composições, dona Marlene fez vários comentários. Para um dos colegas ela disse que ele havia repetido umas palavras que não soaram bem, criaram um som desagradável – aprendi depois que se tratava de um cacófato -, e esse detalhe da sonoridade me tocou fundo, pois eu já sentia que um bom texto tem ritmo, som e musicalidade emocionantes. Ao devolver a minha composição, dona Marlene, sempre séria e sisuda, disse: Você vai ser escritora. Falou de um jeito tão dramático que eu pensei que ser escritora seria uma coisa horrível. Dona Marlene virava outra pessoa, uma espécie de fada com um livro na mão, quando lia em voz alta para nós. Era uma leitura encantadora. Isso também me tocou profundamente.

 

LAM – Quais influências da infância e adolescência foram marcantes para a sua formação como escritora e apaixonada pelas artes?

 

Além de dona Marlene, houve dois professores do Ensino Médio que me influenciaram muito, ao me emprestar ou indicar livros, ao me chamar de poeta ou filósofa: Professor Bento (que depois se misturou ao Bentinho de Dom Casmurro, que maravilha!), dona Nívea (que dizia ser importante aprender a norma culta, a gramática, para depois desobedecê-las com arte). Minha avó paterna, dona Chiquinha, inventava palavras e isso me atiçou a inventar também. Para ela, a avenida Afonso Pena em Belo Horizonte era a avenida Sanfona Pena. Minha mãe era uma contadora de histórias adorável, atiçava a minha imaginação, além de desenhar na primeira página dos meus cadernos, cantar maviosamente, bordar, tricotar, costurar e cozinhar, tudo com arte caprichada, e tudo isso se coaduna com o meu projeto estético.

 

LAM – Quem veio primeiro: a escritora ou a atriz?

 

Vieram juntas, mas a escritora sempre esteve e continua estando em primeiro lugar.

 


LAM – Você é detentora de vários prêmios literários, incluindo o Jabuti, pela obra A mocinha do Mercado Central, que, inclusive, foi tema de duas dissertações de mestrado, Pelas veredas de Stella Maris Rezende: um olhar para A mocinha do Mercado Central (UERJ, 2023), pesquisa da Sol Marins Cortez de Mendonça, e o Espaço e identidade: em a Mocinha do Mercado Central de Stella Maris Rezende, (UFG, 2015), pesquisa de Lilian Rosa Aires Carneiro, afora o artigo A representação feminina na literatura juvenil contemporânea: voz e protagonismo em A mocinha do Mercado Central, publicado na Seção Tema Livre da Revista de Estudos Brasileiros Contemporâneos (2025), escrito por Angelita Cristina de Moraes e Ana Paula Franco Nobile Brandileone. Conta pra gente sobre essa obra, o prêmio e das pesquisas realizadas.

 

Como sempre, não planejo o que vou contar. Jogo uma frase ou outra e a história vem vindo aos poucos. Escrevi e reescrevi A Mocinha do Mercado Central por volta de 8 anos, me divertindo demais com os rumos que o enredo ia tomando. A protagonista gostava de mudar de nomes, viajava para diversas cidades do Brasil e assumia em cada cidade um nome diferente, agia e reagia de acordo com o significado do nome e isso era uma aventura que eu vivia, escrever é se aventurar e viajar. Enquanto escrevo, faço questão de me sentir leitora. O livro foi publicado em 2011, mas já em 2008 havia recebido o Prêmio João de Barro para textos inéditos. Em 2012, recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro para Jovens e o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Foi a primeira vez que um romance juvenil ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Além disso, eu estava com outro livro classificado entre os 10 finalistas, A guardiã dos segredos de família, que ganhou o segundo lugar do Jabuti na categoria de Melhor Livro para Jovens. Ou seja, numa mesma noite, ganhei 3 Jabutis! No processo de escrita de A Mocinha do Mercado Central, pesquisei sobre significados de nomes, e Maria Campos, a personagem principal, é apaixonada por teatro. Como disse Graciliano Ramos, “as nossas personagens são pedaços de nós mesmos”.

 


LAM - A sua trilogia para adolescentes que inclui a já mencionada A mocinha do Mercado Central (2011) e mais A sobrinha do poeta (2012) e As gêmeas da família (2013), que foram tratadas na dissertação de mestrado sob a temática A casa e a biblioteca: espaços afetivos regidos pela mulher em obras de Stella Maris Rezende (UEG, 2020), de Julya Costa Siqueira. Qual a proposta dessa trilogia?

 

Não planejei a trilogia. Ela se consolidou à medida em que eu escrevia, e a presença de uma biblioteca nos três enredos acabou se tornando um fio condutor relevante. Não houve uma proposta premeditada. Aconteceu, certamente devido à paixão por bibliotecas. As histórias desses três livros possuem personagens envolvidas com livros e aventuras emocionantes.

 


LAM – Entre as suas obras, uma outra foi alvo de pesquisa: Primeira leitura do evangelho de Stella Maris Rezende aos jovens brasileiros: análise inicial do livro Justamente porque sonhávamos (Revista Temática, 2019), derivada de artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso ao Curso de Pós-Graduação (lato sensu) em Linguística e Formação de Leitores da Faculdade de Tecnologia Álvares de Azevedo (FAATESP), de João Paulo Hergesel. Fala pra gente como foi o processo de criação e as expectativas com essa obra.

 

Eu não sabia dessa pesquisa! Obrigada por me contar.

Justamente porque sonhávamos é um longo romance em que há um grande mistério numa pequena cidade de Minas. Lá o tempo parou. Todos vivem como se o Brasil ainda estivesse sob a ditadura militar instaurada na década de 1960. Também não foi planejado, como todos os meus livros. O mais interessante neste é que de certa forma ele retrata os tempos atuais em que há no mundo inteiro uma tendência ao retrocesso, a uma negação da História e da Ciência, além de perseguição aos que defendem os direitos humanos e lutam por mais igualdade social. É um romance que por meio de uma prosa poética e muitas aventuras juvenis, provoca reflexões sobre política, machismo, feminismo, prisões, liberdade, medo e coragem.  

 


LAM – O que é a Fada da Palavra e qual a proposta da Oficina Letras Mágicas?

 

Quando participei do programa Carrossel na antiga TV Manchete em Brasília, interpretei a Fada Estrelazul que lia histórias para crianças e jovens. Eu mesma propus a personagem à produção do programa. Disse que ele era bom, divertia o público, mas que faltava um quadro que incentivasse a leitura literária. Argumentei bastante e fui convidada a criar a personagem. Fada Estrelazul se tornou famosa no programa, ao ter livros nas mãos e ler histórias diante das câmeras. Muitos anos se passaram e a publicação de livros se tornou prioritária. Com o advento de novas realidades tecnológicas, criei a Fada das Palavras, um canal no Youtube em que leio trechos de minha autoria e de várias escritoras e escritores que admiro, indico livros, converso com profissionais da educação, ou seja, exercito a minha paixão pelas palavras e as entrelinhas diante de uma câmera.

A Oficina Letras Mágicas incentiva a leitura literária e a escrita criativa em feiras de livros, congressos e encontros literários.

 

Confira a Fada das Palavras e a Oficina Letras Mágicas aqui.

 

LAM – Fala um pouco sobre sua experiência como atriz e da sua paixão pelo teatro e o cinema.

 

Desde pequenininha, tenho paixão pelo palco e pela interpretação de personagens. Gosto de me sentir outra pessoa, brinco, modulo frases, entonações, crio espaços, tudo com a intenção de emocionar, encantar e provocar perguntas. Para mim, as dúvidas e as perguntas são os elementos principais para a conscientização de que a condição humana é extremamente complexa. “A arte existe porque a vida não basta”, disse o poeta Ferreira Gullar. A arte é libertadora e transformadora. O cinema trabalha com imagens que também emocionam e atiçam indagações. O autor da orelha de A Mocinha do Mercado Central escreveu que o livro é praticamente um roteiro pronto para o cinema. O grande ator e diretor de cinema Selton Mello escreveu um lindo prefácio, depois de ler os originais. Disse que o romance daria um bom filme. Alguns dos meus livros já viraram peças de teatro e atualmente um deles está sendo adaptado para um curta metragem em que serei a narradora.  

 


LAM – Você lançou recentemente A filha injustiçada (Farias & Silva, 2026). Fala pra gente do que trata este seu novo trabalho e quais as suas expectativas a respeito.

 

A filha injustiçada tem como voz narradora uma mulher que foi submissa ao marido durante um longo tempo. Ela é a mãe de Maria da Soledade, jovem de 15 anos, que foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena em Minas Gerais. A história se passa no início da década de 1970, em plena ditadura militar, quando os horrores do hospital psiquiátrico, fundado em 1903, se tornaram ainda mais desumanos e aniquiladores. Me inspirei numa fala da minha tia Jovelina, que contava sobre uma menina de Dores do Indaiá – minha terra - que foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena. Trata-se de uma ficção que tem como base uma realidade cruel. O Hospital Colônia foi finalmente fechado neste ano em que lanço o livro, mas infelizmente ainda existem mulheres que são levadas à força para clínicas psiquiátricas, simplesmente por serem mulheres, mulheres que não desistem de sonhar, questionar e viver uma vida mais livre e mais feliz. Meu grande sonho atual é que esse livro seja lido por jovens, mulheres e homens, para provocar reflexões sobre feminicídio, racismo, hipocrisia, machismo, falta de consciência política, egoísmo e desumanização.  

 

LAM – Desde a publicação do seu primeiro livro Dentro das lamparinas (Horizonte, 1979), lá se vão quase 50 anos de trajetória. Quais projetos você tem por perspectiva de realizar?

 

Tenho 4 livros que serão lançados ainda em 2026 e início de 2027. Meus projetos continuam sendo o de ler muito e escrever muito, viajar para outras cidades e outros países, propor que os meus livros estejam em mais e mais livrarias, casas, bibliotecas e escolas. Participar de feiras literárias e encontros com leitores de quaisquer idades. Em primeiro lugar, trabalhar com as palavras e os silêncios, sempre em busca de boa qualidade literária. Fazer arte.

 

Confira o sítio da autora aqui. E mais dela aqui, aqui & aqui.

 

Confira aqui.

 


segunda-feira, junho 08, 2026

A ARTE DE RICARDO AIDAR

 

 

RICARDO AIDAR - Ricardo Bertacin Aidar é engenheiro civil formado pela FAAP, em 1973, frequentou aulas de desenho e pintura em tela com a artista plástica Tereza Nazar, no período de 1962/65. Entre 1969/71 cursou fotografia na Enfoco. De 1978/81 e 2007/2011 fez cursos de joalheria no Ateliê Renato Camargo. Participou em 2022 do curso Encontro com a Arte, na USP, quando passou a integrar o Gentamiga Ateliê (SP). Ele participou com suas obras da publicação Dareladas (CriaArt, 2024), tem trabalhos publicados no zineblog Tataritaritatá e participa da plataforma Ubqub (SP).

 


LAM - Ricardo, vamos pra pergunta de praxe: quando e como se deu seu encontro com a arte?

 

Foi na 2ª Bienal de São Paulo, 1953 – 1954, eu tinha 5 anos e fui com meus pais visitar a exposição! Já fiquei impressionado pela estrutura externa e interna do prédio, espetacular! Mas o maior impacto foi quando fiquei em frente ao quadro genial, Guernica, de Pablo Picasso, neste momento a arte entranhou-se na minha vida para sempre e assim continuarei.

 


LAM - Quais as influências marcantes da infância e adolescência definiram sua formação para as artes?

 

Minha mãe sempre me incentivou a desenhar, desde que aprendi a segurar um lápis não parei mais de desenhar, ensinando também cerâmica pintura em porcelana, decoração de interiores, arranjos florais e estética.

Dos 11 aos 13 anos, fiz um curso no ateliê da artista argentina, Tereza Nazar e do escultor grego Nicolas Vlavianos, aprimorando pintura a óleo em várias técnicas.

 

LAM - Você também é engenheiro civil. Conta pra gente como se deu a sua formação para atuar nessa área.

 

Por influência de pai engenheiro civil e avô materno engenheiro elétrico, e pelo fato de a profissão me agradar, fiz engenharia civil, formado pela FAAP em 1973.

Como me atraia muito a Arquitetura, virei um arquiteto pelo convívio com um grupo de amigos formados em 1974 pela USP.

 


LAM - Você fez diversos cursos na área artística, incluindo cursos de Fotografia, Joalharia, entre outros. Como você avalia a experiência de realização desses cursos para sua formação profissional?

 

Sim, a fotografia já era uma constante e por sugestão do fotógrafo Hilton Ribeiro, irmão de minha mulher, fiz o curso de fotografia na escola ENFOCO, fazendo em casa um laboratório para revelação de fotos.

 

LAM - Quais as contribuições advindas dos cursos de desenho e pintura para a sua formação profissional?

 

Foram decisivas para que atualmente eu tenha segurança, e felicidade de ter atingido, seguido a rota que me leva a meta que desejo atingir.

 


LAM - Como foi a sua experiência no curso Conversa de Artes da USP?

 

Foi decisiva, pois além do curso ser excelente, conheci e fiz amizade com artistas durante a pandemia todas as semanas, trocando ideias e produzindo muito e de ter o prazer de trabalharmos juntos, sempre aprendendo e nos divertindo muito e prazeroso.

 

LAM - Você integra o grupo Atelier Gentamiga. Como você avalia as experiências realizadas neste grupo?

 

Nos encontros semanais continuamos juntos, desde o final do Curso da USP, isto me alegra profundamente, pois trocamos ideias, técnicas e muita produção e nos divertimos muito!

 


LAM - Você participou com suas obras da publicação Dareladas. Como foi participar deste projeto e a experiência com a obra de Darel Valença Lins?

 

Foi excelente, um artista que eu pouco conhecia, e com a contribuição do famoso integrante Luiz Alberto Machado, o LAM, tivemos a oportunidade de fazer um ótimo trabalho conjunto.

 


LAM - Você realizou recentemente uma exposição de suas obras no Espaço RGAOBE - Arte Ofício e Bem Estar, em São Paulo. Conta pra gente como se deu esta experiência.

 

Fiquei muito feliz por saber que causou um impacto positivo e perceber que sendo a primeira vez que exponho meus trabalhos, estou no rumo certo.

 

LAM - Quais as suas perspectivas com relação a realização de projeto artísticos pro futuro?

 

Sendo já aposentado na engenharia e com 77 anos, o que desejo é continuar e aprimorar o trabalho artístico.

 


Veja mais de Ricardo Aidar aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



domingo, abril 19, 2026

A ARTE DE CIBELE SARKIS CARNEIRO

 

Cibele Sarkis Carneiro é artista visual de Ribeiro Preto (SP) e atua como professora de Artes em diversas escolas da rede pública e privada. É graduada em Educação Artística pela Unaerp (1983) e em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela USP (2021). É pós-graduada em Artes pela Unesp (2012). É integrante do Gentamiga Ateliê (SP) e participa da plataforma Ubqub (SP). Sua arte transita pela gravura em metal, fotografia, restauração e conservação. Ela participou com seus trabalhos da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e tem trabalhos publicados no zineblog Tataritaritatá.

 

LAM - Cibele, vamos pra pergunta de praxe: quando e como se deu seu encontro com a arte?

 

Eu não encontrei a arte — ela já estava em mim.

 

LAM - Quais influências marcantes da infância e adolescência definiram sua formação para as artes?

 

Tive influências de várias pessoas: uma prima, minha professora, minha mãe e também do meu próprio jeito de ser. Desde cedo, eu não me contentava com o comum, sempre buscava ir além.

 

LAM - Você também é professora. Conta pra gente como se deu a sua formação e atividades pedagógicas na área de Educação Artística?

 

Dos quatro filhos dos meus pais, eu era a única que sabia exatamente o que queria: ser artista. Fui fazer o curso de Arte em uma faculdade em Ribeirão Preto. No primeiro ano, levei tudo de forma mais leve, até que, com um incentivo mais firme da minha mãe, entrei nos trilhos. Levei comigo uma frase de um amigo: “na faculdade, você aprende nos corredores”. Isso me fez perceber que, para desenvolver atividades pedagógicas, era essencial estar atenta ao entorno, às propostas da escola e, principalmente, aos alunos. Tanto que uma mesma proposta, aplicada na mesma série, sempre gerava resultados diferentes — e isso é o mais rico do processo.

 

4. Como você avalia o ensino de Artes na educação formal brasileira?

 

Infelizmente, não vejo com bons olhos. Muitos educadores ainda não permitem que os alunos fluam com suas ideias. Sei que não é fácil — salas lotadas, falta de material, ausência de espaços adequados — mas ainda existe a visão equivocada de que a arte serve apenas para “decorar a escola” em datas comemorativas.

 

5. Você cursou Biblioteconomia. Conta pra gente como se deu essa escolha e a importância dos livros e da biblioteca na formação humana.

 

Foi uma escolha depois da minha aposentadoria. Eu não queria ficar parada em casa — era a “avó da turma”, mas fui mesmo assim. Foi um curso desafiador, porque, como artista (ou “arteira”), não sou muito organizada, e a Biblioteconomia é bastante estruturada. Ainda assim, fiquei fascinada. Passei a enxergar os livros e as bibliotecas com outros olhos, percebendo a profundidade da área e as diversas possibilidades profissionais. Embora eu não tenha atuado na área, o ambiente que mais me encantou foi o museu.

 

6. Você também cursou Fotografia. Relate suas experiências nessa área.

 

Uma professora de música da faculdade ficou encantada com minhas fotos, e foi a partir disso que comecei a valorizar mais meu olhar fotográfico. Enquadramento, luz, formas, paisagens e pessoas sempre marcaram — e ainda marcam — meus cliques. Captar um momento, deixá-lo estático e, ao mesmo tempo, provocar o observador a dar movimento a ele… isso é fascinante.

 

7. Como foi sua experiência no curso Conversa de Artes da USP?

 

Marcante.

 

8. Você integra o grupo Atelier Gentamiga. Como avalia essa experiência?

 

Somos um grupo leve, de bem com a vida. Cada um trabalha no seu ritmo, sem cobranças. Cada artista tem sua forma de expressão, e o respeito entre nós é o que sustenta tudo.

 

9. Você participou com suas obras da publicação Dareladas. Como foi essa experiência e o contato com a obra de Darel Valença Lins?

 

Darel apareceu na minha vida por sua causa. Ao conhecer sua trajetória, fiquei muito tocada. Participar do projeto foi especial — em alguns momentos, me senti um pouco Darel.

 

10. Quais são suas perspectivas para projetos artísticos futuros?

 

Nenhuma específica. Eu deixo a vida me levar.

 

Verja a arte de Cibele Sarkis Carneiro aqui.



sábado, março 28, 2026

MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

 

 

MANTO

 

O que pode um manto?

À serventia de um corpo

Vai cumprindo sua missão

Adere à pele

Toma-se de significados

 

Quando visível

Esconde mistérios

Revela poderes

Destaca o sagrado

 

Quando invisível

Quem o carrega

Carrega também o peso

De duras construções

 

O que pode um manto?

Assim, criado

Protege ou mantém

Lugares de opressão?

 

ÚTERO

 

Invólucro sagrado

Gerador de vidas

Umas ansiadas

Outras aturdidas

Signatário do materno

Símbolo mulher

Ora falho

Ora belo

Bem ou malmequer

 

De ciclos em ciclos

Sangra pra gerar

Gera pra parir

Pílulas

Ligadura

Histerectomia

Pura ironia

Controle do mundo

Cortando a raiz…

 

CASA

 

Arrumou a casa

Sendo a que habita

Mobília lustrada se via

Arejadas áreas e alma

Em tranças de energia

 

Arrumou a casa

Sendo o teu corpo

Pele banhada sentia

Dedos, cheiros e toques

Energia que arrepia

 

Arrumou a casa

Sendo o teu mundo

Natureza em harmonia

Misturando os elementos

Reciclando alegria

 

Mas…

Nem sempre arrumou

Nem sempre lustrou

Nem sempre banhou

Nem sempre tocou

Nem sempre harmonizou

Porque…

Nem sempre morou

Nem sempre se olhou

Nem sempre se achou

Nem sempre sorriu

Às vezes chorou

 

MANTO MULHER

 

Recebi alguns mantos da vida

Que se incumbiram de me fazer mulher

Uns, enlaçados em fios de proteção

Outros, treliçados, amarrando minhas mãos

Mãos desatadas no desejo revelado

Desnudam-me lentamente

A pele sensível não mente

Ao retirar cada manto

Encontrei minha originalidade escondida

A espontaneidade pra vida

Agora, embalada pelo canto

Pássaros livres que se alimentam em meu ombro…

 

NEM PESOS, NEM MEDIDAS

 

Não quero mais nada pesando em meus ombros

Não quero ter que me comportar

Não quero ter que me calar

Não quero ter que me responsabilizar

Não quero ter que cuidar

Não quero pesos

Nem medidas

Nem explicações desconexas

Quero chuva em meus cabelos

Cara lavada e boca destravada

Ombros desnudos como asas

Horizonte como destino

E na estrada

Pés descalços para me lembrar:

Sempre há pedras ao caminhar

 

DEVASTAÇÃO

 

Corre ligeira

Nem sempre faceira

Mas com ar de feiticeira

Que tem sempre um jeito a dar

 

Corre cantos

Chora prantos

Estoura feridas

Prestes a curar

 

Corre doida

De alma doída

Fama de mulher

Jeito de menina

 

Corre a mão

Esconde a devastação

Segue o dia

E não disse não

 

MEU ESCUDO

 

Chego devagarinho

Cheiro de encantamento

Pisando faço caminho

Silêncio é ensinamento

 

No jogo sagrado

Revelações de mim

Nada ao acaso

Dores fincadas no sim

 

Na voz do mestre xará

Pela primeira vez escuto

Omolu é meu orixá

Palhas fazendo escudo

 

Em face de jovem

Já corpo de velha

Sob manto sagrado

Guardiã de mistérios

 

EU TÔ BEM

 

Dizer que tá bem sem tá

É moer a própria carne

Para alimentar em si

O desconforto de tolher

Dentre tantas coisas

Aquelas indizíveis

 

Dizer que tá bem sem tá

É contrariar a própria natureza

Que anseia por fluir

Entre caminhos livres

Mas que se esbarra

Em pau, pedra ou fim do caminho

 

Dizer que tá bem sem tá

É reter o que se extravia

No esforço de blindar a dor

Deve haver um jeito

De seguir sem medo

Ou apenas dizendo: não tô!

 

MANSIDÃO E ABRASIVA

 

Fui chão, abrigo e calor

Mar aberto e amargor

Guerrilheira em fogo cruzado

Contradição amor

 

Atleta inerte do tempo

Dignidade ao vento

Confundida com trabalho

Luta e movimento

 

Me trancei em fantasias

Lançada em alegrias

Olhos brilhos margeados

Corpóreas agonias

 

Querendo ser brisa

Memórias alusivas

Um sentir disparatado

Mansidão e abrasiva

 

FEITO PIPOCA

 

Se as dores que me fazem quem sou

Pudessem pular feito pipoca

Não esperaria anoitecer

E enfeitava minha “paioça”

Bordaria um manto de palha

Só para fiar minhas manhas

E de manhã, cedinho

Passado o efeito do vinho

Meu corpo desnudo marcado

Comemoraria sem devoção

Das feridas à renovação

 

MANTO MULHERManto Mulher é um livro da poeta Carmen Camuso, que reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. No primeiro capítulo, os poemas expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. A proposta é de versos livres, com temáticas que aludem o cotidiano, revelando a escrita como lugar de expressão e travessia. A autora é mãe, avó, feminista, psicóloga, mestre em Ciências da Saúde e servidora pública do Estado da Bahia. Na pandemia da Covid-19, mediou um grupo de escrita terapêutica. Hoje, integra o Movimento Cultural Alvorecer, atuando como agente cultural na produção de eventos e na organização de antologias poéticas, como a Antologia Alvorecer Pétalas e Lâminas. Veja mais aqui.