STELLA MARIS REZENDE – É uma escritora mineira
de Dores do Indaiá, premiada autora com dezenas de livros publicados, tanto para
o público adulto, como o infantojuvenil. Ela é mestre em Literatura Brasileira
pela Universidade de Brasília, participa de feiras literárias e ministra a
oficina Letras Mágicas. É atriz e interpretou a Fada Estrelazul do programa
Carrossel na TV Manchete e a tia Stella na TV Record. Já ganhou 4 Jabutis,
entre eles o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano e o de Melhor Livro
Juvenil para A mocinha do Mercado Central (2012), 3 Prêmios
João-de-Barro (1986, 2002 e 2008), Prêmio APCA/Associação Paulista de Críticos
de Arte (2013), Prêmio Brasília (2014), Barco a Vapor (2010), Bienal Nestlé
(1988), Prêmio Seleção Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, e dezenas de selos
de Altamente Recomendável da FNLIJ/Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil. Em 2022, recebeu o Prêmio Hors Concours da Cátedra Unesco de Leitura
da PUC-Rio por Alegria Pura em reedição.
Recentemente
ela lançou o elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026),
ocasião em que nos concede esta entrevista.
Com vocês,
Stella Maris Rezende
LAM - Você é autora de dezenas de livros (um total de 40,
acredito), tem experiências como atriz e é apaixonada pelo teatro e o cinema.
Vamos então para a pergunta de praxe: como e quando se deu seu encontro com a
arte?
A partir do segundo semestre de 2026, serão
60 livros publicados. Sempre fui apaixonada por contar histórias, e desde
pequenininha, gostava de reunir meus irmãos mais novos e vizinhos, para
inventar uma história na hora. Eu fazia questão de não saber o que iria contar,
era uma grande alegria dar conta de inventar no instante em que olhava para a
plateia! Fazia pausas. Olhava atentamente para cada pessoa. E as palavras iam
chegando, o enredo se apresentava, a plateia se entusiasmava quando eu fazia
uma pausa demorada, antes de contar o final da trama. Aos 8 anos, a professora
pediu que escrevêssemos uma composição durante a aula. Naquele tempo se dizia
composição, palavra que considero mais bonita que redação. Desembestei a
escrever e a história atingiu quase 20 páginas! Ao devolver as composições, dona
Marlene fez vários comentários. Para um dos colegas ela disse que ele havia
repetido umas palavras que não soaram bem, criaram um som desagradável –
aprendi depois que se tratava de um cacófato -, e esse detalhe da sonoridade me
tocou fundo, pois eu já sentia que um bom texto tem ritmo, som e musicalidade
emocionantes. Ao devolver a minha composição, dona Marlene, sempre séria e
sisuda, disse: Você vai ser escritora. Falou de um jeito tão dramático que eu
pensei que ser escritora seria uma coisa horrível. Dona Marlene virava outra
pessoa, uma espécie de fada com um livro na mão, quando lia em voz alta para
nós. Era uma leitura encantadora. Isso também me tocou profundamente.
LAM – Quais influências da infância e adolescência foram
marcantes para a sua formação como escritora e apaixonada pelas artes?
Além de dona Marlene, houve dois professores do Ensino
Médio que me influenciaram muito, ao me emprestar ou indicar livros, ao me
chamar de poeta ou filósofa: Professor Bento (que depois se misturou ao
Bentinho de Dom Casmurro, que maravilha!), dona Nívea (que dizia ser importante
aprender a norma culta, a gramática, para depois desobedecê-las com arte). Minha
avó paterna, dona Chiquinha, inventava palavras e isso me atiçou a inventar
também. Para ela, a avenida Afonso Pena em Belo Horizonte era a avenida Sanfona
Pena. Minha mãe era uma contadora de histórias adorável, atiçava a minha
imaginação, além de desenhar na primeira página dos meus cadernos, cantar
maviosamente, bordar, tricotar, costurar e cozinhar, tudo com arte caprichada,
e tudo isso se coaduna com o meu projeto estético.
LAM – Quem veio primeiro: a escritora ou a atriz?
Vieram juntas, mas a escritora sempre esteve e continua
estando em primeiro lugar.
LAM – Você é detentora de vários prêmios literários,
incluindo o Jabuti, pela obra A mocinha do Mercado Central, que,
inclusive, foi tema de duas dissertações de mestrado, Pelas veredas de
Stella Maris Rezende: um olhar para A mocinha do Mercado Central (UERJ,
2023), pesquisa da Sol Marins Cortez de Mendonça, e o Espaço e identidade:
em a Mocinha do Mercado Central de Stella Maris Rezende, (UFG, 2015),
pesquisa de Lilian Rosa Aires Carneiro, afora o artigo A representação
feminina na literatura juvenil contemporânea: voz e protagonismo em A
mocinha do Mercado Central, publicado na Seção Tema Livre da Revista de
Estudos Brasileiros Contemporâneos (2025), escrito por Angelita Cristina de
Moraes e Ana Paula Franco Nobile Brandileone. Conta pra gente sobre essa obra,
o prêmio e das pesquisas realizadas.
Como sempre, não planejo o que vou contar. Jogo uma frase
ou outra e a história vem vindo aos poucos. Escrevi e reescrevi A Mocinha
do Mercado Central por volta de 8 anos, me divertindo demais com os rumos
que o enredo ia tomando. A protagonista gostava de mudar de nomes, viajava para
diversas cidades do Brasil e assumia em cada cidade um nome diferente, agia e
reagia de acordo com o significado do nome e isso era uma aventura que eu
vivia, escrever é se aventurar e viajar. Enquanto escrevo, faço questão de me
sentir leitora. O livro foi publicado em 2011, mas já em 2008 havia recebido o
Prêmio João de Barro para textos inéditos. Em 2012, recebeu o Prêmio Jabuti de
Melhor Livro para Jovens e o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Foi a
primeira vez que um romance juvenil ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Ficção
do Ano. Além disso, eu estava com outro livro classificado entre os 10
finalistas, A guardiã dos segredos de família, que ganhou o segundo
lugar do Jabuti na categoria de Melhor Livro para Jovens. Ou seja, numa mesma
noite, ganhei 3 Jabutis! No processo de escrita de A Mocinha do Mercado
Central, pesquisei sobre significados de nomes, e Maria Campos, a
personagem principal, é apaixonada por teatro. Como disse Graciliano Ramos, “as
nossas personagens são pedaços de nós mesmos”.
LAM - A sua trilogia para adolescentes que inclui a já mencionada
A mocinha do Mercado Central (2011) e mais A sobrinha do poeta (2012) e
As gêmeas da família (2013), que foram tratadas na dissertação de mestrado
sob a temática A casa e a biblioteca: espaços afetivos regidos pela mulher
em obras de Stella Maris Rezende (UEG, 2020), de Julya Costa Siqueira. Qual
a proposta dessa trilogia?
Não planejei a trilogia. Ela se consolidou à medida em
que eu escrevia, e a presença de uma biblioteca nos três enredos acabou se
tornando um fio condutor relevante. Não houve uma proposta premeditada.
Aconteceu, certamente devido à paixão por bibliotecas. As histórias desses três
livros possuem personagens envolvidas com livros e aventuras emocionantes.
LAM – Entre as suas obras, uma outra foi alvo de
pesquisa: Primeira leitura do evangelho de Stella Maris Rezende aos jovens
brasileiros: análise inicial do livro Justamente porque sonhávamos (Revista
Temática, 2019), derivada de artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de
Curso ao Curso de Pós-Graduação (lato sensu) em Linguística e Formação de
Leitores da Faculdade de Tecnologia Álvares de Azevedo (FAATESP), de João Paulo
Hergesel. Fala pra gente como foi o processo de criação e as expectativas com
essa obra.
Eu não sabia dessa pesquisa! Obrigada por me contar.
Justamente porque sonhávamos é um longo romance em que há um grande
mistério numa pequena cidade de Minas. Lá o tempo parou. Todos vivem como se o
Brasil ainda estivesse sob a ditadura militar instaurada na década de 1960.
Também não foi planejado, como todos os meus livros. O mais interessante neste é
que de certa forma ele retrata os tempos atuais em que há no mundo inteiro uma
tendência ao retrocesso, a uma negação da História e da Ciência, além de
perseguição aos que defendem os direitos humanos e lutam por mais igualdade
social. É um romance que por meio de uma prosa poética e muitas aventuras
juvenis, provoca reflexões sobre política, machismo, feminismo, prisões,
liberdade, medo e coragem.
LAM – O que é a Fada da Palavra e qual a proposta da Oficina
Letras Mágicas?
Quando participei do programa Carrossel na antiga TV
Manchete em Brasília, interpretei a Fada Estrelazul que lia histórias para
crianças e jovens. Eu mesma propus a personagem à produção do programa. Disse
que ele era bom, divertia o público, mas que faltava um quadro que incentivasse
a leitura literária. Argumentei bastante e fui convidada a criar a personagem.
Fada Estrelazul se tornou famosa no programa, ao ter livros nas mãos e ler
histórias diante das câmeras. Muitos anos se passaram e a publicação de livros
se tornou prioritária. Com o advento de novas realidades tecnológicas, criei a
Fada das Palavras, um canal no Youtube em que leio trechos de minha autoria e
de várias escritoras e escritores que admiro, indico livros, converso com
profissionais da educação, ou seja, exercito a minha paixão pelas palavras e as
entrelinhas diante de uma câmera.
A Oficina Letras Mágicas incentiva a leitura literária e
a escrita criativa em feiras de livros, congressos e encontros literários.
Confira a Fada das Palavras e a Oficina Letras Mágicas aqui.
LAM – Fala um pouco sobre sua experiência como atriz e da
sua paixão pelo teatro e o cinema.
Desde pequenininha, tenho paixão pelo palco e pela
interpretação de personagens. Gosto de me sentir outra pessoa, brinco, modulo
frases, entonações, crio espaços, tudo com a intenção de emocionar, encantar e
provocar perguntas. Para mim, as dúvidas e as perguntas são os elementos
principais para a conscientização de que a condição humana é extremamente
complexa. “A arte existe porque a vida não basta”, disse o poeta Ferreira
Gullar. A arte é libertadora e transformadora. O cinema trabalha com imagens
que também emocionam e atiçam indagações. O autor da orelha de A Mocinha do
Mercado Central escreveu que o livro é praticamente um roteiro pronto para
o cinema. O grande ator e diretor de cinema Selton Mello escreveu um lindo prefácio,
depois de ler os originais. Disse que o romance daria um bom filme. Alguns dos
meus livros já viraram peças de teatro e atualmente um deles está sendo adaptado
para um curta metragem em que serei a narradora.
LAM – Você lançou recentemente A filha injustiçada
(Farias & Silva, 2026). Fala pra gente do que trata este seu novo trabalho
e quais as suas expectativas a respeito.
A filha injustiçada tem como voz narradora uma mulher que foi submissa ao
marido durante um longo tempo. Ela é a mãe de Maria da Soledade, jovem de 15
anos, que foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena em Minas
Gerais. A história se passa no início da década de 1970, em plena ditadura
militar, quando os horrores do hospital psiquiátrico, fundado em 1903, se
tornaram ainda mais desumanos e aniquiladores. Me inspirei numa fala da minha
tia Jovelina, que contava sobre uma menina de Dores do Indaiá – minha terra - que
foi levada à força para o Hospital Colônia de Barbacena. Trata-se de uma ficção
que tem como base uma realidade cruel. O Hospital Colônia foi finalmente
fechado neste ano em que lanço o livro, mas infelizmente ainda existem mulheres
que são levadas à força para clínicas psiquiátricas, simplesmente por serem mulheres,
mulheres que não desistem de sonhar, questionar e viver uma vida mais livre e
mais feliz. Meu grande sonho atual é que esse livro seja lido por jovens,
mulheres e homens, para provocar reflexões sobre feminicídio, racismo,
hipocrisia, machismo, falta de consciência política, egoísmo e desumanização.
LAM – Desde a publicação do seu primeiro livro Dentro
das lamparinas (Horizonte, 1979), lá se vão quase 50 anos de trajetória.
Quais projetos você tem por perspectiva de realizar?
Tenho 4 livros que serão lançados ainda em 2026 e início
de 2027. Meus projetos continuam sendo o de ler muito e escrever muito, viajar
para outras cidades e outros países, propor que os meus livros estejam em mais
e mais livrarias, casas, bibliotecas e escolas. Participar de feiras literárias
e encontros com leitores de quaisquer idades. Em primeiro lugar, trabalhar com
as palavras e os silêncios, sempre em busca de boa qualidade literária. Fazer
arte.
Confira o sítio da autora aqui. E mais dela
aqui, aqui & aqui.
Confira aqui.






